segunda-feira, 18 de setembro de 2017

OBRAS PIONEIRAS SERÃO TAMBÉM LANÇADAS EM COIMBRA

«Editar e conhecer as obras pioneiras da nossa cultura é uma maneira excelente de tomarmos consciência do nosso passado extraordinariamente rico e de nos apercebermos de que a nossa língua esteve a par de grandes línguas europeias, antecipando-se até, por vezes, a algumas delas no processo de autonomização do tronco da língua latina de onde emergiu.»

Excerto da Apresentação da obra
Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República Portuguesa
  
Convite


O Círculo de Leitores, a Reitoria da Universidade de Coimbra e a Reitoria da Universidade Aberta têm a honra de convidar V.ª Ex.ª para a sessão de lançamento de Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, com a direção de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais.

A apresentação da obra estará a cargo de José Pedro Paiva e Nicolau Santos.

A sessão realizar-se-á na Sala de São Pedro do Edifício da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pelas 18h30 do dia 28 de setembro de 2017.

AUTÁRQUICAS DE COIMBRA: UMA ANÁLISE POLÍTICA


O PS é o partido que tem governado a Câmara Municipal de Coimbra. Ou melhor, um membro do PS chamado Manuel Machado, uma vez que como nos três mandatos anteriores o Presidente tem feito um mandato unipessoal. Desta vez zangou-se com a sua número dois, Rosa Reis Marques. O PS de Manuel Machado obteve em 2013 um resultado relativamente escasso (35,5%), praticamente o mesmo que tinha obtido quatro anos antes, que se revela tanto mais escasso se olharmos para o número de votos: 22631, num eleitorado de 129060 cidadãos. Beneficiou da abstenção - as pessoas estavam cansadas e descrentes e do facto de os seus principais opositores se terem partido (PSD-PPM-MPT 29,7 % e CDS-PP 3,9%, os dois em conjunto 33,6%, que teriam sido decerto mais se tivesse havido uma coligação de centro-direita). Nos pequenos partidos, a CDU teve 11,1% e os Cidadãos por Coimbra, apoiados pelo Bloco de Esquerda, 9,3%. Como o PS não tinha a maioria dos vereadores serviu-se como "muleta" de um vereador da CDU. Os partidos da oposição e, por vezes, a própria CDU queixaram-se do autoritarismo de Machado. A Câmara de Manuel Machado foi, de facto, muito fraca, muito mais fraca até do que em mandatos anteriores. Pouco pôde apresentar de trabalho feito. Os problemas que se propôs resolver - basta ler o seu programa  de 2013 - ficaram por resolver. Um dos seus maiores fracassos foi o parque industrial i-Parque, que está falido. Outro foi o Centro de Congressos do Convento de S. Francisco, que não conseguiu atrair congressos relevantes, limitando-se, com uma gestão paroquial da própria Câmara, a alguns espectáculos sem grande poder de atracção. Os dois vultuosos equipamentos, resultantes de fundos europeus,  foram  caríssimos e estão desaproveitados. Outros grandes investimentos como o Parque Verde - do programa Polis - e o Convento de Santa Clara-a-Velha foram inundados pelas águas, sem que tenha havido nem prevenção nem reparação pronta. A Universidade conseguiu ser Património Mundial da UNESCO, mas a cidade não tem aproveitado essa circunstância: os turistas vêm só à Alta. A Baixa, incluindo a rua da Sofia, continuou a definhar. Um dos maiores escândalos da cidade - o Metro Mondego - deixou um buraco enorme de ruína e devastação na Baixa que não foi resolvido (para além de ter deixado um buraco no orçamento). Não houve o prometido metro nem se construiu a prometida Via Central. Outro escândalo da cidade foi a continuação da Estação Velha e da Rodoviária em condições lamentáveis. Não se fez novo Tribunal. A velhinha Penitenciária não saiu do sítio. O Hospital continuou sem estacionamento. Nada disto tem razão de ser porque o presidente devia conhecer os problemas, tinha experiência autárquica e era da mesma cor do governo, um governo que defende a descentralização. Machado diz que a Câmara teve 30 milhões de euros de lucro: isso significa que não teve a capacidade de investir para suprir algumas das graves carências da cidade, como por exemplo a reabilitação do centro histórico.

A situação da cidade é tão deficitária que o próprio PS tentou muito antes das eleições ver se existia alguma solução sem Machado, tendo testado alguns nomes alternativos. Ainda em Maio passado PS admitia que a Câmara de Coimbra era uma daquelas em risco de mudar de mãos.

Não tendo quase nada a oferecer Manuel Machado veio à última hora prometer um Aeroporto Internacional de Coimbra. A ideia não faz qualquer sentido. Não há um estudo, não há um plano, não há um orçamento. É uma ideia megalómana ao melhor estilo de Sócrates, só faltando saber s eo grupo Lena tem alguma coisa a ver com ela. Machado sabe que está a enganar - não há sequer dimensão no planalto de Antanhol para uma pista mínima -  mas tem uma razão para o fazer: quer lançar uma "cortina de fumo" para que, ocupando o espaço mediático, não se discuta os verdadeiros problemas: porque continua a cidade  a cair? porque não há investimento? porque não há empregos? Além da ideia risível do aeroporto a única estratégia que resta ao presidente-candidato é fazer-se de vítima. Após um debate na RTP3, respondeu às críticas dos seus opositores dizendo que eles tinham atacado os conimbricenses. Quer dizer, Machado, que representa uma parte pequena de Coimbra, toma-se por Coimbra toda. Só se pode queixar de si rio e queixa-se dos outros.

Nas próximas eleições autárquicas a liderança de Manuel Machado na Câmara de Coimbra está em risco. Muitos eleitores do PS não se sentem representados pelo continuado líder coimbrão, que não conseguiu nenhum protagonismo nacional e muito menos internacional. Ao PS não fará grande diferença que Machado perca (António Costa estava ao lado de Machado quando ele anunciou o aeroporto internacional de Coimbra e não o apoiou nessa pretensão, nem nessa altura nem depois) pois vai ganhar no todo nacional. Vai ganhar, por exemplo, em Lisboa, onde tem uma gestão moderna e eficaz, que conseguiu fazer da capital uma cidade global.

O normal seria agora, dado o histórico de alternância entre PS e PSD (por vezes coligado com o CDS), que a Câmara passasse para o segundo partido. O PSD e o CDS uniram-se (juntando outras forças sem grande significado, como o PPM) mas não conseguiram nem escolher um candidato convincente nem formar uma equipa renovada, preparada para os grandes desafios da cidade. Jaime Ramos o candidato do PSD-CDS, veio de Miranda do Corvo, onde reside, trabalha e vota. Tem um histórico de quatro mandatos, o último interrompido antes de uma decisão judicial desfavorável. Reconhecendo que tem um conjunto de interesses económico-sociais a defender em Miranda do Corvo, que está de resto a estender a Coimbra (onde adquiriu recentemente um colégio  para o explorar), já declarou que não fica na Câmara de Coimbra se não ganhar.  Entrou em campanha cedo mas cedo esgotou as suas "munições" com tiros para o ar. Cada dia anunciava uma coisa, mas percebeu-se logo que era tudo desgarrado, que não havia um plano coerente e, muito menos, havia pessoas minimamente capazes de realizar um plano desse tipo. A sua lista inclui as pessoas do costume, que nunca no governo da Cãmara ou fora dele tiveram soluções para a cidade. Contra Jaime Ramos joga o facto de um voto nele ser um voto em Passos Coelho. Ora muitos social-democratas, por exemplo Carlos Encarnação, querem discutir a liderança do PSD logo após as autárquicas. Se Passos Coelho vier a Coimbra, Ramos perderá uma boa parte dos votos com que conta. Além disso, a coligação com o CDS está absolutamente fora do prazo. Não se vai reeditar tão cedo no país, dada a má memória dos tempos de Passos Coelho -  Portas. Não veremos Passos Coelho de mãos dadas com Assunção Cristas no Penedo da Saudade. Percebe-se que, à semelhança do que se  passa no PS, o caso de Coimbra não interessa ao directório do PSD na sede da S. Caetano à Lapa. O PSD vai perder no país (vai ser curioso ver a votação de André Ventura em Loures, de cujo discurso Ramos não se distanciou), E com grande probabilidade, vai perder também em Coimbra. O CDS não tem expressão local nem em Coimbra nem, em geral, no país.

A CDU, honra lhe seja, não muda. Mas, poecisamente porque não muda há muitos anos vai decaindo de eleição em eleição, embora lentamente. Tem trabalho e competência em muitos concelhos do país, mas esse não é o caso em Coimbra. Não ajuda nada o facto de o seu actual candidato, Francisco Queiroz, ser o vereador que ajuda Manuel Machado.  A CDU pode fazer críticas ao governo de Machado mas é evidentemente  parte dele. A CDU vai tentar no país - e talvez consiga- não cair muito em luta com o PS, mas Coimbra não passa de uma minúscula parte desse esforço de resistência à erosão. A erosão em Coimbra vai continuar.

Embora contenha alguns independentes, os Cidadãos de Coimbra são a expressão em Coimbra do Bloco de Esquerda (BE), como mostra, entre outros, o facto de a sua mandatária ser Marisa Matias, deputada europeia do BE e de a lista incluir muitos filiados do BE.  É um grupo pequeno que não vai crescer, até porque houve uma cisão no seu interior que levou ao afastamento de alguns dos seus dirigentes. O seu líder, arranjado à última hora (vindo directamente da CDU, o  que explica algumas picardias recíprocas), Jorge Gouveia Monteiro, um político voluntarioso e conhecedor de alguns dossiers da autarquia mas que não tem nem carisma nem discurso para levar o seu grupo a um patamar de alguma ambição. Na melhor das hipóteses os Cidadãos de Coimbra / BE pode aspirar a eleger um vereador. O sonho, que chegou a ser declarado pelo responsável pelo movimento (que não coincide com o candidato), seria fazer uma "geringonça" em Coimbra com o PS e a CDU. Mas isso é não perceber a lógica da "geringonça nacional", que não tem nem terá expressão local (veja-se o caso de Lisboa). Além disso, seria um pouco patético para os Cidadãos criticarem, como fazem e bem, Machado e depois  servirem de suporte a ele, Em boa verdade, o BE, que não tem expressão autárquica no país (ganharam em Salvaterra de Magos, mas houve aí casos mal esclarecidos), quer apenas ser oposição em Coimbra. O poder não lhe interessa, quer apenas ser contrapoder.

Nestas eleições, dada a manifesta  incapacidade de tirar Coimbra do marasmo, surgiu uma lista inteiramente independente, Somos Coimbra, liderada por José Manuel Silva, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, que pretende ganhar para operar uma mudança efectiva, que leve à  reafirmação do concelho de Coimbra no país. É uma novidade e uma alternativa para os muitos cidadãos desiludidos com alguns líderes partidários. Indicando que havia um espaço para novos actores, o Somos Coimbra foi a primeira candidatura a entregar as listas, a apresentar publicamente o seu programa de regeneração da cidade e a abrir a sua sede de campanha na Baixa da cidade. Faço parte dessa lista, na qualidade de suplente da candidatura à  Câmara Municipal, e partilho com muitos independentes e cidadãos com partido ou simpatizantes de um  partido a ideia de que existe agora uma oportunidade de relançar Coimbra. O momento surgiu com o claro objectivo de ganhar e vários indicadores confirmam essa hipótese. A probabilidade de vitória existe, embora seja difícil nesta altura de quantificar. Muito vai depender do crescendo da campanha. Uma coisa é neste momento já certa: o panorama da governação da autarquia de Coimbra vai-se modificar porque o Somos Coimbra irá buscar muitos votos à abstenção e aos votos brancos e nulos (a percentagem enorme da abstenção em Coimbra, 51%,  faz com que o resultado possa ser inesperado) assim como votos ao eleitorado de todos os partidos, desde o PS aos BE, passando pelo PSD, CDS e CDU. O Somos Coimbra diz que os problemas da cidade  não podem ser resolvidos pelos mesmos  partidos que até agora se revelaram incapazes de os resolver. É a hora de dar a oportunidade a novos protagonistas, de  unir esforços para resolver os problemas da cidade que estão - ou deviam estar - para além das divisões partidárias e dos interesses das clientelas associadas aos partidos. Como mostra o caso do Porto (onde Rui Moreira vai de novo ganhar), os partidos são necessários em democracia mas não esgotam de maneira nenhum a  participação democrática. A democracia contém sempre em si a possibilidade de uma solução.

domingo, 17 de setembro de 2017

ÚLTIMA TERTÚLIA DO CICLO CIÊNCIA AO LUAR EM COIMBRA


No próximo dia 18 de Setembro, segunda - feira, das 21h00 às 22h00, no Café Santa Cruz, o Prof. Doutor Carlos Brás Saraiva, médico psiquiatra no Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra e Professor da Faculdade de Medicina da mesma Universidade e o Prof. Doutor Luiz Miguel Santiago, médico de Medicina Geral e Familiar e Professor Associado da Faculdade de Medicina da UC terão uma conversa sobre medicina e saúde, moderada por Carlos Fiolhais, Director do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.

Esta tertúlia fecha o ciclo “Ciência ao Luar”, do programa Ciência Viva no Verão em Rede 2017, em Coimbra, que se realizou no Café Santa Cruz. Estando prevista para o dia 11 de Setembro, foi adiada por motivo de força maior. A tertúlia é aberta às intervenções dos cidadãos.

BIOGRAFIAS:

Carlos Manuel Braz Saraiva, nascido em Coimbra em 1950, é médico psiquiatra do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Professor de Psiquiatria na Faculdade de Medicina e membro do Conselho Médico-Legal. Desde o início da década de 80 tem desenvolvido trabalhos de investigação, a par de intensa actividade clínica, principalmente na área dos comportamentos suicidários. As suas principais áreas de interesse, para além da suicidologia, são as doenças do humor, os distúrbios da personalidade e do impulso, a psiquiatria forense e o psicodrama. Para além de centenas de comunicações orais e posters, tem mais de 100 trabalhos publicados em Portugal e no estrangeiro. É autor dos livros “Para-Suicídio” (Quarteto, 1999), “Estudos sobre o Para-Suicídio – O que Leva os Jovens a Espreitar a Morte” (EA, 2006). No âmbito literário, publicou “Turbulências” (Audimprensa, 1995) e “Janela de Almas” (reedição, Lidel, 2015).

Luiz Miguel Santiago é licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra desde 1979, Mestre em Saúde Pública pela Universidade de Coimbra (UC) em 2006 e Doutorado, pela UC, na Especialidade de Sociologia Médica, ramo de Medicina Preventiva e Comunitária, em 2009.  Desde 2017 é Professor Associado da Faculdade de Medicina da UC.  Na carreira médica de Medicina Geral e Familiar é Consultor com o Grau de Assistente Graduado Sénior desde 2002, sendo orientador no Internato Complementar de Medicina Geral e Familiar desde 2006.  Foi Professor Associado Convidado da Universidade da Beira Interior e Professor Adjunto Convidado da Coimbra Health School.  É membro da Academia Europeia de Professores em Medicina Geral e Familiar na qual é formador e orientador de Teses de Mestrado e de Doutoramento, na UC e na UBI. É membro da Comissão de Ética da ARS do Centro e na Ordem dos Médicos, Secção do Centro, do Gabinete de Ética. Tem vasta bibliografia em livros e revistas especializadas.

Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

Educação: o fim anunciado de uma era de grandes sucessos



Artigo de Filipe Oliveira no Observador:
Após os catastróficos resultados obtidos durante a década de 1990, os estudos internacionais têm revelado uma extraordinária evolução dos alunos portugueses. Portugal foi o país que, no TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Studies), maiores progressos fez a Matemática durante os últimos 20 anos, evidenciando até, em 2015, desempenhos superiores aos da Finlândia, vista tradicionalmente como tendo um dos melhores sistemas de ensino do mundo. Também no PISA 2015 (Programme for International Student Assessment), pela primeira vez, os alunos portugueses situaram-se acima da média da OCDE em cada uma das três componentes em avaliação: Literacia Científica, Matemática e Leitura. O ano letivo de 2014/2015 fica igualmente marcado por uma prodigiosa melhoria do sucesso escolar, traduzida numa redução drástica das taxas de retenção em todos os anos de escolaridade, do 1.º ao 12.º, redução essa confirmada no ano seguinte (dados disponíveis no sítio da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência).
Estes resultados muito positivos foram obtidos graças à implementação, por parte de diferentes governos, de políticas educativas com alguma coerência global, que transformaram o país num verdadeiro exemplo para a comunidade internacional: entre 2000 e 2015, sempre num espírito de relativa continuidade, introduziram-se provas no final de cada ciclo do ensino básico, apostou-se na formação de professores, enriqueceram-se currículos, estabeleceram-se objetivos claros para o ensino e exigiu-se qualidade aos manuais escolares através do processo de certificação.
Em contra-corrente, o atual Ministério da Educação parece empenhado em romper drasticamente com este rumo de sucesso, tão firmemente mantido pela mão de governantes dos mais diversos estilos e cores políticas. Para o efeito, tem apresentado medidas radicais desprovidas de qualquer suporte técnico ou científico, que visam apenas liquidar esta continuidade e comprometer os pilares em que assenta o tão duramente conquistado sucesso dos alunos portugueses.
Em 2015, sem qualquer explicação, a atual maioria aboliu as provas finais do 1.º e do 2.º ciclo, pondo assim fim a uma preciosa série temporal que permitia a monitorização da evolução do sistema de ensino de ano para ano, identificando pontos positivos e eventuais fragilidades a corrigir. Não existe, atualmente, qualquer instrumento que permita medir o que os alunos efetivamente aprenderam no final destes dois ciclos cruciais, tornando impossível a deteção atempada de eventuais degradações da qualidade do ensino que possam vir a comprometer o sucesso futuro dos jovens. Note-se que a redução recente das taxas de retenção foi sancionada por exames nacionais. Como interpretar, a partir de agora, a evolução dessas taxas? De seguida, no caso da Matemática, o Ministério da Educação decidiu de forma totalmente gratuita liquidar a certificação de manuais escolares. É consensual que este processo levou, nos últimos dez anos, a uma melhoria muito significativa dos livros utilizados pelos alunos portugueses. Hoje, e tal como acontecia nos anos noventa, qualquer pessoa pode elaborar um manual e colocá-lo no mercado, não ficando de forma alguma salvaguardada a respetiva qualidade científica e pedagógica. Trata-se, na prática, de um grande retrocesso: este processo sustentava o trabalho dos professores, que outrora eram frequentemente confrontados com erros científicos nos manuais.
Se tudo isto é já suficientemente gravoso, eis que o Ministério da Educação publica, durante o mês de agosto e a escassos dias do arranque do ano letivo, uma profundíssima revisão curricular que rompe abruptamente com tudo o que tem sido o ensino em Portugal. Jorge Buescu apelida-a, na edição do Público do passado dia 12 de setembro, de «Processo de Revolução Educativa em Curso» (PREC). E, de facto, merece bem a designação. Para evitar este tipo de guinadas súbitas, a lei portuguesa estabelece prazos mínimos para a implementação de orientações oficiais que rompam com as vigentes (20 meses). Há assim tempo para efetuar consultas públicas, promover debates, ouvir especialistas, informar as famílias dos contornos das reformas e preparar novos materiais adequados aos novos programas. Sobretudo, deve ser dado tempo aos professores para tomarem conhecimento das alterações preconizadas e assim poderem idealizar as melhores estratégias para as colocar em prática: em última instância, é o trabalho dos professores que permite conduzir os alunos ao sucesso.
Para contornar esta imposição, decidiu o Ministério da Educação apelidar esta substituição dos currículos de «flexibilidade curricular», reduzindo os 20 meses a 20 dias. Vai aplicar desde já – e sem qualquer consentimento dos encarregados de educação dos alunos envolvidos – os novos programas a “turmas experimentais” dos 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade, abrangendo cerca de 20% das escolas do país e generalizando estas disposições a todos os alunos no próximo ano letivo. Tudo isto sem ouvir os professores, com exceção de escassos dirigentes de associações profissionais já em si com muito pouca representatividade no meio escolar. Por maior que seja a sua dedicação, temos neste momento nas escolas professores desorientados e perplexos com estas diretivas súbitas.
Pretende-se promover nas escolas um ensino assente em «projetos interdisciplinares». A interdisciplinaridade e a integração de conhecimentos oriundos de áreas diversas são fundamentais no desenvolvimento cognitivo das crianças e jovens. Contudo, colocar o “interdisciplinar” a montante do “disciplinar” é um erro há muito identificado: é como atirar uma criança com uma raquete na mão para dentro de uma piscina e esperar que aprenda a nadar e a jogar ténis em simultâneo. As disciplinas têm especificidades próprias e necessitam de um estudo dedicado, sério e exigente. E onde se encontra o tempo para realizar esses projetos? É simples: cortam-se até 25% dos conteúdos de todas as disciplinas e em todos os níveis. Sim, leu bem: 25% de todas as disciplinas e em todos os níveis. Por exemplo, em Matemática, os alunos abrangidos vão aprender menos do que o que era determinado pelo Programa do Secundário de 1998, menos do que o que se encontrava previsto no Programa do Ensino Básico de 2007, e, sobretudo, muito menos do que os colegas que, este ano, não integrarão este projeto. Os documentos que regem os cortes a aplicar, ditos Aprendizagens Essenciais, para além de extremamente vagos e inúteis enquanto orientadores do ensino, são de uma qualidade que em nada dignifica o país, apresentando erros técnicos e científicos de grande gravidade (veja-se, a este propósito, o comunicado da Sociedade Portuguesa de Matemática).
Se é Encarregado de Educação, é importante que determine o mais depressa possível se o seu educando se encontra numa turma experimental e, se for o caso, exigir junto da escola que lhe sejam ministrados todos os conteúdos previstos nos programas efetivamente em vigor, o que lhe permitirá ficar em igualdade de circunstâncias com os colegas que frequentam uma turma regular, em termos de conhecimentos que irá adquirir e de capacidades que irá desenvolver. Os danos provocados por este experimentalismo selvagem, que durará um ano letivo completo (ainda para mais o primeiro do ciclo), serão difíceis, senão impossíveis, de reverter.
Filipe Oliveira
Filipe Oliveira é Coordenador do Programa e Metas Curriculares de Matemática de 2013 e Professor no ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa

sábado, 16 de setembro de 2017

O Partido Socialista, a ADSE e a "praga cinzenta"


Porque “tudo deve ser discutido; sobre isso não há discussão possível” (Pitigrilli), mais um meu artigo de opinião sobre esta temática, desta feita publicado no passado dia 14 deste mês, in “Diário as Beiras”:

“A não retroactividade das leis é o que distingue a civilização da barbárie”
(Augusto Santos Silva, actual ministro do Partido Socialista).

Circunstâncias várias levam-me a escrever novo artigo de opinião sobre a ADSE porque no Portugal d’hoje tardam em serem solucionados pelo poder político os problemas de Saúde Pública.

Para situar o leitor sobre a repescagem pelo Partido Socialista de uma legislação do tempo dos sociais-democratas (1983) em banho-maria desde então possivelmente para evitar possíveis danos eleitorais foram nesta legislatura levadas a efeito alterações pela ADSE em maré alta de popularidade de António Costa (antes do fatídico incêndio de Pedrógão Grande).

Desta forma, foram despejados no caixote do lixo direitos adquiridos que pudessem onerar em cêntimos a discussão de um orçamento de Estado comprometido com casos de corrupção e prejuízo de milhões de bancos falidos por gestão dos seus responsáveis.

Pondo água na fervura surge agora, tarde e a más horas, a ADSE, em genuflexão ao Rei Midas, de forma aparentemente menos draconiana, mas não menos desumana, passando a permitir apenas a inscrição de cônjuges de beneficiários titulares desde que passem a fazer descontos de uma (in)determinada quantia e não tenham mais de 65 anos de idade.

Essas benesses, trazem-me à memoria um amigo que me dizia que favores destes também os espanhóis me fazem sem me conhecerem de lado nenhum. Como corolário desta exigência, falta, apenas, a ADSE exigir aos novos cônjuges dos beneficiários titulares a apresentação de um atestado de junta médica que comprove uma saúde ferro e preveja a sua continuação por muitos e bons anos. E este statu quo é tanto mais escandaloso por uma Auditoria do Tribunal de Contas denunciar que o Governo está a financiar o Orçamento do Estado à custa da ADSE por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões do que seria necessário (Expresso, 17/07/2015).

Sem necessidade de exemplificar com o caso de doentes que morrem por cirurgias adiadas para as calendas gregas nos hospitais públicos ou de doentes obrigados a recorrer a consultas privadas em Dermatologia “que podem levar anos no SNS” (Semanário Sol, 29/10/2015), trata-se esta medida altamente penalizadora para a “ praga cinzenta” (expressão escandalosa de Carlos Peixoto) por discriminar idosos em sofrimento por doenças graves, atirados de supetão, por vezes, de madrugada e em dias invernosos, para as urgências dos hospitais públicos de um Serviço Nacional de Saúde a rebentar pelas costuras ainda que mesmo sem esta nova e inesperada “clientela” que usufrui de reformas, por vezes, correspondentes a menos de metade do ordenado mínimo nacional quer tenham ou não descontado para a Segurança Social, em desrespeito por princípios constitucionais em que situações desiguais não devem ser tratadas igualmente.

Caro leitor, estas são breves pinceladas de um lamentável quadro socioeconómico que deveria preocupar o anónimo cidadão tornando pública a sua voz, em dever de cidadania para que estas questões fossem atendidas no palácio ardiloso de governantes de um país avesso aos princípios humanísticos e doutrinários defendidos por António Bagão Félix, antigo ministro da Segurança Social do XV Governo de Portugal: “O Estado social discute-se porque é a parte do Estado que tem mais a ver com as pessoas velhas, reformadas, desempregadas, estão sós, têm incapacidades, pessoas que não têm voz, não têm ‘lobbies’, não abrem telejornais, não têm escritórios de advogados, não têm banqueiros” (Jornal de Negócios, 30/11/2012).

Finalmente, se para esta minha posição de repúdio pessoal plasmada em inúmeros artigos de opinião por mim assinados, encontro razão, muito mais razão encontro para que partidos políticos, actuais compagnons de route do Partido Socialista, manifestem a sua posição institucional num assunto que lhes diz directamente respeito em defesa de um estado social que não seja simples slogan de campanha eleitoral para captar votos e pretexto para a nomeação de comissões sem qualquer poder decisório. Ou seja, como sói dizer-se, unicamente para inglês ver!

A Constituição não fala em "género", sim em "sexo"

Dou, abaixo, destaque ao comentário de um leitor anónimo. Tomo a liberdade de acrescentar, entre parêntesis rectos, alguns elementos que completam o texto.
Queria chamar a sua atenção para estes factos:  
Segundo a Constituição [da República Portuguesa] a notícia [Igualdade de género vai ser um tema obrigatório no ensino básico e secundário] refere-se a algo que é uma inconstitucionalidade. 
A Constituição não fala em género, sim em sexo. O Estado, a cumprir o noticiado vai estar a infringir claramente o Artigo 43, alínea 2. O Artigo 13, alínea 2 também será infringida. 
Artigo 13.º- Princípio da igualdade (...) 
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. 
Artigo 43.º - Liberdade de aprender e ensinar (...) 
2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas. 
[Nota]. Neste ano lectivo a nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania será apenas desenvolvida nas escolas que integram o projecto-piloto de flexibilidade curricular. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

“O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”

Novo post de Galopim  de Carvalho:

“O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”
Vai sair em 2ª edição
Ponto 1 - Vivo perfeitamente, feliz e em paz com a minha reforma, o que nunca me impediu de, no meu exercício de cidadania, me situar do lado da “barricada” dos explorados.
Ponto 2 - Como autor, que sou, de mais de uma vintena de livros, nunca actuei nem não actuo a pensar nos direitos de autor. Direi, mesmo, que me basta a sorte de ter um editor que dê à estampa o produto do meu trabalho.
Ponto 3 – Já vivi muito, já trabalhei muito e já tive as homenagens que tive. Não procuro mais, não preciso, como se diz, de me “pôr nos bicos dos pés”. Apenas procuro servir no domínio em que adquiri alguma competência – o ensino da disciplina em que fui profissional, quer no terreno e no laboratório, como geólogo, quer na sala de aula, a todos os níveis de escolaridade.
Ponto 4 – Se insisto em publicitar aqui, no Facebook, este meu novo livro, é apenas, repito, é apenas porque entendo (e já dei sobejas provas de que tenho autoridade para tal) que ele deve ser lido, em especial, pelos Professores que ensinam Geologia e Geografia nas nossas Escolas.
Ponto 5 - Entendo, mas não insisto em afirmá-lo, que ele oferece ao leitor jovem ou adulto uma informação, a nível geral e básico, sobre a história do nosso Planeta, indispensável à sua condição de cidadania.

Este livro é uma ideia tão feliz quanto necessária e útil. O seu valor pedagógico é comparável aos cadernos de iniciação científica de Rómulo de Carvalho. Com uma diferença que lhe acentua a utilidade: é que me parece que precisam tanto dele os jovens alunos como os professores do ensino básico e secundário que temos e em que me incluo. Recomendá-lo-ei aos meus alunos do secundário, assim como tomarei a iniciativa de o recomendar aos colegas de grupo disciplinar e ainda solicitarei à direcção da Escola que adquira meia dúzia deles para a biblioteca”.
José Batista da Ascenção

Professor de Biologia e Geologia da Escola Secundária Carlos Amarante, Braga

NOVOS LIVROS DE HISTÓRIA E DE CIÊNCIA

António Araújo apresenta  hoje no Público  as novidades da rentrée na não ficção:

"Histórico, em vários sentidos, é também o lançamento das Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, um empreendimento monumental coordenado por José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais (Círculo de Leitores), que nos dará, num período temporal dilatado, uma selecção de nada menos do que 80 obras em 30 volumes, resultado de um projecto levado a cabo por uma equipa multidisciplinar de 174 elementos. Esmagador. "

(...)

"Na ciência, a Gradiva a pontuar, como é hábito: na colecção Ciência Aberta, superiormente dirigida por Carlos Fiolhais, Tecnologia versus Humanidade, de Gerd Leonhard, e, em Outubro, Viagem ao Infinito, de Martin Rees. Com A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio, na Temas e Debates, que nos traz também A Invenção da Ciência, de David Wooton."

LANÇAMENTO DE "O REINO DO MEIO"

Informação recebida da Gradiva:


PROGRAMA DO MOVIMENTO INDEPENDENTE "SOMOS COIMBRA"


O movimento independente SOMOS COIMBRA, que se candidata às eleições autárquicas em Coimbra,  foi o primeiro a apresentar o seu programa

https://docs.wixstatic.com/ugd/7fbb27_ec3c93209cc94689872efa103a0ef901.pdf

Aí são propostas iniciativas como estas:

1- Reconstrução urbana e facilitação das condições para que estudantes e famílias repovoem a Baixa (aplicando aí a maior parte do actual superavit da Câmara); criação da "Startup Baixa", ninho de empresas no Edifício Chiado, realizado em colaboração com o Instituto Pedro Nunes, como meio  de dinamização da Baixa.

2 - Retirada da linha férrea entre Coimbra A e Coimbra B, ligando a cidade ao rio Mondego; instalação de uma piscina fluvial e recuperação do Parque Verde; mudança do "depósito de autocarros" da Guarda Inglesa para dar mais  margem esquerda à população (será da escolha desta o equipamento a erguer aí).

3- Retirada da Penitenciária para a periferia da cidade a fim de  dar lugar a zonas verdes, residências estudantis, nova Biblioteca Municipal e espaços comerciais ligados à cultura e ao turismo.

4- Crescimento do i-Parque, que está abandonado, atraindo investimento e empresas do país e do estrangeiro.

5- Nova estação de Coimbra-B como estação intermodal de transportes (ferro-rodoviária) e linha de de eléctrico rápido na cidade, independente embora articulada com a Linha da Lousã.

6- Deslocalização de parte do Ministério da Saúde para Coimbra, reclamando alguma centralidade para Coimbra no todo nacional.

7- Construção de Silo de Estacionamento nos CHUC; resolução por semaforização do engarrafamento da grande rotunda dos Almegre, junto à Escola Agrária, e dos outros problemas de trânsito da cidade.

8- Criação do "Coimbra Story Center" ("Centro de Histórias de Coimbra") no Convento de São Francisco, como  "âncora" do turismo, que deve ser ampliado a partir da marca do Património  Mundial  que é "Universidade e Sofia",  mais bem ligada  ao conjunto da cidade.

9- Desenvolvimento de um projecto cultural da cidade que assente na valorização e no  trabalho conjunto dos agentes culturais e  artistas da cidade em diálogo com o público da cidade e do país,
para o que é vital a colaboração da Câmara e da Universidade, que estão infelizmente nesta como noutras áreas de costas voltadas.

10-  Transformação de Coimbra numa cidade digital e aberta, ampliando as zonas de wifi e aproveitando os múltiplos benefícios das novas tecnologias (por exemplo, a Internet das Coisas).

Isto, claro, para além da desburocratização da Câmara, da criação de um Gabinete do Munícipe, de um programa Simplex para cidadãos e empresários, de uma política  de transparência  e de um Orçamento Participativo.

Carlos Fiolhais
(candidato nas listas à Câmara Municipal do movimento SOMOS COIMBRA, liderado por José Manuel Silva)

O FILME DE APRESENTAÇÃO DAS OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

LUTERO, CONSTRUTOR DA MODERNIDADE


Nos dias 9, 10 e 11 de novembro de 2017 realizar-se-á, em Lisboa, o 
Congresso Internacional Um Construtor da Modernidade: Lutero — Teses — 500 Anos, para comemorar o quinto centenário do que pode ser considerada a fundação do movimento reformador europeu. Nestes dias, estarão reunidos alguns dos maiores conhecedores da obra e do legado de Lutero, para uma revisitação do seu pensamento e para uma reflexão sobre as dimensões do movimento da Reforma e a sua influência.

As inscrições para participar no Congresso podem ser formalizadas através da respetiva página:  www.congressolutero500anos.org.

A CIDADE PROIBIDA EM PEQUIM

Em Agosto estive também na Cidade Proibida, no centro de Pequim:








CONVITE APRESENTAÇÃO DAS OBRAS PIONEIRAS NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO


AS OBRAS PIONEIRAS NA RONDA DA NOITE DA ANTENA 2, COM LUÍS CAETANO

https://www.rtp.pt/play/p1299/e305956/a-ronda-da-noite

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Volta Machado!

Face à monotonia do debate público relativo às eleições autárquicas, há quem intervenha (e bem) pela ironia. Eis abaixo as rimas de uma eleitora, antes enviadas para o Diário de Coimbra, sobre a recandidatura de Manuel Machado à Câmara de Coimbra.

(A imagem ao lado não é, como muitos saberão, real; é, na verdade, há vários anos, muitos, uma miragem).


Volta Machado!
Com toda a tua ambição
Para transformares Coimbra
Na capital da Nação!

Volta Machado!
Com tanta capacidade
Já vemos o metro-mondego
A circular na cidade!

Volta Machado!
Corta tudo o que está torto
Está todo o mundo à espera
Desse grande aeroporto!

Volta Machado!
Olha em volta por momentos:
Não há rotundas que valham
A tantos engarrafamentos!

Volta Machado!
Acaba com o atraso
Que faz que esta nossa terra
Viva à sombra do acaso!

Volta Machado!
Chega de promessas ocas
Ouve as vozes destas gentes
Já fartos de tantas "bocas"!

Volta Machado!
E mostra se estás à altura
Desta cidade que foi
Berço de História e Cultura!

Maria Antónia Vasconcelos
Coimbra

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O GENIAL DALAI LIMA FALA DO AEROPORTO INTERNACIONAL DE COIMBRA

Presidente da Câmara de Coimbra  defende a construção de um Aeroporto Internacional que ligue a cidade à Lousã.
Dalai Lima - o pé-de-atleta dos poderosos

Também em http://blogdodalailima.blogspot.pt/ e boas casas de banho públicas.

PREC na Matemática: facilitismo para o século XXI

Artigo  de Jorge Buescu, publicado hoje no Público, com o qual obviamente concordo. Sou sócio da SPM e lembro que esta instituição foi escandalosa afastada pelo Ministério da Educação do grupo de trabalho destinado a preparar o PREC educativo:

 O Ministério da Educação (ME) iniciou em meados de Agosto uma reforma curricular – omitindo, contudo, por razões tácticas, esta designação, que determinaria a sujeição ao rigoroso e demorado procedimento previsto na lei – que está em vias de desmantelar os sólidos progressos alcançados em Educação nas últimas duas décadas.

Sob a capa de uma alegada “flexibilização curricular”, o ME prepara uma reforma profundíssima em todos os anos do Ensino Básico e Secundário, do 1.º ao 12.º anos, a qual envolve a disponibilização de até 25% do tempo lectivo actual para projectos interdisciplinares de natureza ainda desconhecida, geridos autonomamente pelas escolas e pelos professores envolvidos.

A flexibilização curricular, no abstracto, pode até ter aspectos interessantes e positivos. Contudo, o modelo que está a ser implantado é profundamente destrutivo do nosso tecido educativo. Com efeito, e porque se pretende manter o tempo total de leccionação, o tempo disponibilizado para outras actividades será obtido à custa de suprimir tempos lectivos actualmente atribuídos às disciplinas. Ou seja, as disciplinas actualmente leccionadas ficarão, em média, com menos 25% das aulas.

É claro que programas escolares concebidos e calibrados para uma dada carga lectiva não podem ser leccionados em 3/4 do tempo. Assim, a face negra da flexibilização curricular, sempre ausente da retórica oficial, é que haverá um corte efectivo de até 25% dos conteúdos a leccionar nas disciplinas actuais - podendo estes cortes variar de escola para escola, e no limite de professor para professor.

O ME optou por não acompanhar uma reforma tão profunda como esta de um processo de discussão pública e esclarecimento de pais e alunos. Em vez disso, nomeou um grupo de trabalho que, longe da vista do público, trabalhou na definição das assim chamadas Aprendizagens Essenciais (AE). Estas consistem no seguinte: para cada área disciplinar (Matemática, Português, História, Geografia, Física…), a partir do Programa e Metas actualmente em vigor, definem-se quais os conteúdos curriculares “essenciais” – e, por exclusão de partes, quais os “acessórios”. Os primeiros, que correspondem aproximadamente a 75% do programa em vigor, são os conteúdos que devem ser efectivamente leccionados. Os segundos são facultativos: podem ou não ser leccionados, mas nunca serão avaliados.

Ou seja: em termos práticos, as Aprendizagens eliminam a obrigatoriedade de leccionar 25% dos conteúdos curriculares – em todas as disciplinas, em todos os anos, em todos os graus de ensino. Este Processo de Reforma Educativa em Curso, verdadeiramente revolucionário, bem merece o nome de PREC.

O PREC foi discretamente publicado na página web da Direcção Geral de Educação durante o mês de Agosto de 2017, entrando em vigor no ano lectivo 2017/18 – três semanas depois da sua divulgação! Neste primeiro ano funcionará em regime piloto em 240 escolas portuguesas, sendo intenção do ME alargar esta experiência a todo o universo escolar português em 2018/19. Pode ler-se no respectivo documento:

“As AE são o Denominador Curricular Comum para todos os alunos, mas não esgotam o que um aluno deve fazer ao longo do ano letivo. Não são os mínimos a atingir para a aprovação de um aluno, são a base comum de referência”.

 Ou seja, os alunos podem fazer mais coisas do que aprender o que fica definido nas AE. É natural: estas foram concebidas justamente para funcionar como cortes de matéria de forma a “libertar espaço curricular”. Mas apenas os conteúdos constantes das AE fazem parte da aprendizagem comum a todas as escolas. Na realidade, só tais conteúdos poderão ser examinados: “A avaliação externa das aprendizagens tem como referencial base as AE”. Os conteúdos tornados facultativos passam pois a ser letra morta: estão no papel, mas não é suposto leccionarem-se (o que, de resto, seria impossível com menos 25% de tempo disponível) e nunca sairão em exames.

 Estes documentos curriculares são extremamente vagos, sendo na prática inúteis enquanto orientação eficaz do ensino. No caso da Matemática as Aprendizagens Essenciais padecem ainda de graves falhas científicas. A isto não pode ser estranho o facto de, do Grupo de Trabalho ministerial, ter sido deliberadamente excluída a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), intransigente defensora da qualidade do ensino e parceira de sempre de todos os Ministérios da Educação.

A extensão do dramático empobrecimento científico resultante desta reforma está bem patente no segundo parágrafo do programa do 10º ano de Matemática A: “As Aprendizagens Essenciais (AE) agora apresentadas para o 10.º ano baseiam-se na interseção dos programas da disciplina para este ano de escolaridade homologados em 2002 e em 2014[3]”. Aquilo que os alunos sujeitos, já no ano de 2017/18, a esta delirante experiência vão aprender no 10.º ano é, pois, menos do que o programa de 2014, e é também menos do que o programa de 2002. Numa singela frase, os conteúdos de Matemática retrocedem mais de 20 anos. Alunos que nesta semana iniciem o secundário (ou, na verdade, qualquer ciclo de ensino) vão aprender muito menos Matemática do que os seus colegas do ano passado!

Este PREC recorre a métodos que não julgaríamos possíveis num Estado de Direito democrático. Toda a reforma foi preparada no segredo dos gabinetes, não foi submetida a discussão pública e foi discretamente comunicada às escolas três semanas antes do início das aulas. A esmagadora maioria dos pais das crianças que vão ser cobaias deste experimentalismo não teve opção por fazer ou não parte das turmas-piloto – porque não soube da existência do PREC. Agora é tarde: o ano está a começar e as turmas estão constituídas. O seu filho está numa turma-piloto?

O Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues é um homem de Ciência, esclarecido e cosmopolita, e um académico com créditos firmados internacionalmente. Ele sabe bem que a Matemática é uma ciência extremamente estruturada e cumulativa, na qual aprender menos é saber menos. Custa a acreditar que esteja a promover uma reforma tão dissolvente do conhecimento, do rigor e da exigência como a que está em curso com este PREC.

 Jorge Buescu
 Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática