segunda-feira, 23 de abril de 2018

Damião de Goes, projecto para Mariano Gago


Texto da fotógrafa Luísa Ferreira, que preparou um belo projecto fotográfico de homenagem a José Mariano Gago em Alenquer (com catálogo):

No início de 2015 José Mariano Gago telefonou-me para combinar uma sessão de retrato e uma ida a Alenquer. O que vamos fazer a Alenquer? A minha referência era o presépio gigante que via da Estrada Nacional a caminho da aldeia dos meus pais quando era pequena. No próprio dia, já dentro do carro, Mariano disse-me o que íamos fazer a Alenquer: fotografar Damião de Goes.

Falou-me ainda de Alhazen, físico e matemático árabe do século XI, que “escreveu o primeiro Tratado decente sobre Óptica. Na Antiguidade supunha-se que a luz saía dos nossos olhos para os objectos. Alhazen fabricou várias cameras obscuras. Depois de deduzir a formação da imagem na retina, descobre que a imagem está invertida, que é o nosso cérebro que a descodifica. A imagem
não é fixa e tem que ver com o movimento sensorial.” (das notas que escrevi do que Mariano me disse)

Passámos algures, para buscar o Zé Carlos. Mariano falou-me mais sobre Damião. O grande humanista português do século XVI nasceu e morreu em Alenquer, depois de ter passado muitos anos fora do país. Foi viver para a corte aos nove anos e o Rei enviou-o para a Europa. Conviveu com Erasmo de Roterdão, entre outros pensadores, comprou e partilhou obras de arte, voltou a Alenquer onde adquiriu uma quinta e sofreu com a Inquisição.

Damião de Goes encomendou um busto funerário, e Mariano queria ver esse rosto. Disse-me que seria o retrato mais verdadeiro. Queria olhá-lo de frente. Queria ler o que ele mandara gravar na pedra, pois Goes escreveu o seu próprio epitáfio e a inscrição para a laje tumular. O busto de Damião de Goes estava partido. Não pudemos ver o que Mariano tanto queria. Vimos um rosto alterado.

Para José Mariano Gago, «fotografia é estar com os outros, mostrar-lhes, ver. A fotografia é VER”, como me respondeu, em Dezembro de 2014, a um inquérito feito no âmbito do meu doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O busto estava muito alto na parede da capela, e não havia escadote disponível. Voltei a Alenquer com o Zé Carlos e um escadote para ficar de frente com Damião de Goes. Mariano queria ter um retrato de Damião de Goes na sua casa e queria também colocar um na Real Academia Belga. Queria ainda organizar um Caderno de Alenquer, com fotografias e legendas, que começou a discutir com a sua filha Catarina.

Ao falar com Karin Wall, sua mulher, sobre a possibilidade de fazer uma exposição para homenagear José Mariano Gago, ela pediu-me que concluísse e desse vida ao Caderno de Alenquer, um trabalho que ficara parado desde a morte de Mariano: após a nossa expedição, eu nada mais fizera que uma primeira versão provisória do Caderno, a pedido dele.

Tentei desenvolver este objecto-livro através de uma narrativa fotográfica em torno de José Mariano Gago e de Damião de Goes, procurando na casa de Mariano, lendo Damião de Goes e estudos sobre ele. Voltei a Alenquer, agora com a Descrição da Cidade de Lisboa de Damião de Goes e com o apoio do historiador Filipe Rogeiro (Karin Wall oferecera-me esse livro na minha primeira visita a sua casa). Na Torre do Tombo, onde Damião fora Guarda-Mor, Silvestre Lacerda facultou-me o acesso
a documentos e a importantes livros daquela época, que fotografei.

Paralelamente fui ao encontro de Mariano a casa da mãe, Maria das Dores, descobri o Humanista jovem que não conhecia. Recolhi ainda algumas fotografias que realizei para Mariano Gago enquanto Ministro da Ciência e Tecnologia e mais tarde MCTES. Este trabalho paralelo será publicado em livro com o título Ao encontro de ZÉ MARIANO.

Os dois projectos cruzam-se na presente exposição.

Luísa Ferreira

Agradecimentos

Agradeço especialmente a Karin Wall a confiança pessoal, a colaboração e o financiamento do projecto. E a Dulce Anahory, por me ter apresentado a José Mariano Gago em 1996. Agradeço também a Catarina Wall Gago e a Maria das Dores Pires Gago.

E agradeço a todos aqueles que me ajudaram na pesquisa histórica e documental, na concepção editorial e na realização gráfica e técnica deste livro, e cujos contributos tão importantes foram para mim: Alberto Caetano, Ana Barata, Ana Paula Dias, Ana Trindade, António Coxito, Bruno Carvalho, Célia Cunha Ferreira, Elina Heikka, Filipe Rogeiro, Horácio Villalobos, Hugo Alexandre, Hugo David, meu filho, Inácio Andaluz, José Carlos Nogueira, José Sousa Machado, Leonel Azevedo, Lourenço Correia de Matos, Luís Carrôlo, Luís Filipe Barreto, Márcia Andrade, Maria Carlos Loureiro, Maria José Miguel, Maria Tavares, Miguel Cunha Ferreira, Nuno Pacheco, Nuno Soares, Olli Jaatinen, Rui Prata, Silvestre Lacerda, Vasco Rosa e Vera Velez. E ainda, relativamente à presente exposição agradeço a Chloé Pais Daquet, Luís Figueiredo, Max Man, Rosário Costa e Rui Costa, um agradecimento muito especial ao meu filho pela ajuda preciosa na instalação das fotografias no Museu, na Igreja da Várzea.

Exposição

Ao encontro de DAMIÃO DE GOES para JOSÉ MARIANO GAGO
Luísa Ferreira
Museu de Damião de Goes e das Vítimas da Inquisição - Igreja de Santa Maria da Várzea, Alenquer
25 de Fevereiro a 30 de Abril de 2018
Todos os dias das 10h às 18h
Livraria Sá da Costa – Galeria, Lisboa, Março de 2017.

Livro
Ao encontro de DAMIÃO DE GOES para JOSÉ MARIANO GAGO
fotografias de Luísa Ferreira, 2015-2017
Edição de autor
300 exemplares, impressos por Digiset.
Depósito Legal 422766/17
ISBN 978-989-20-7387-3

2ª edição
aumentada com texto de Karin Wall,
lido pela autora no dia da inauguração
da exposição e da apresentação do livro
na Livraria Sá da Costa – Galeria,
Lisboa, 10 de Março de 2017.
200 exemplares, impressos por Digiset.
Depósito Legal 429724/17
ISBN 978-989-20-7387-3

www.luisaferreira.com

O modelo educativo finlandês: replicá-lo ou evitá-lo?

Gabriel Heller Sahlgren, investigador sueco na área da "Economia da educação", com carreira feita em Londres, publicou recentemente um livro bastante crítico sobre o sistema de ensino finlandês com o título Real Finnish Lessons. Isso valeu-lhe um prémio importante e ser apresentado como o "homem que desmontou" a ideia de que a educação finlandesa é uma referência e, portanto um "modelo a imitar". Na verdade, é o contrário será "um perigo imitá-la".

Numa entrevista que lhe foi feita recentemente, publicada no início deste mês (ver aqui), reafirma que os bons resultados obtidos por esse país se devem à sua tradição educativa e não às reformas mais recentes, que tem implementado. De facto, os excelentes posicionamentos no PISA e no TIMSS (dois programas internacionais de avaliação dos sistema educativos através da prestação dos alunos) têm vindo a baixar e isso decorre, em grande medida dessas reformas, que uma multiplicidade de países procura replicar.

Dessa entrevista saliento duas passagens.

A referência que faz às orientações da OCDE que, afirma, não partirem de uma base substancial:
"El gran problema no son los resultados en sí, que están bien, sino las recomendaciones de la OCDE u otras organizaciones que se preguntan qué deben hacer los países para obtener mejores notas, y que a menudo no se basan en nada.
A sua análise vinculada ao modelo económico, segundo a qual a escola tem de estabelecer uma ligação estreita com a economia.
... es importante recordar que la evidencia sugiere que un rendimiento mayor es clave para el crecimiento económico. Los resultados ya no solo miden los conocimientos, sino otras habilidades como la conciencia social, la capacidad para trabajar duro, etc., que también son muy importantes para el futuro de los niños en el mercado laboral.
Em suma, é, na verdade, fundamental questionar, de modo objectivo, modelos educativos que se apresentam como intocáveis mas é também fundamental encontrarmos outros olhares que não só nem principalmente o económico.

Referência completa do livro: Heller Sahlgren, Gabriel (2015). Real finnish lessons. The true story of an education superpower. London, UK: Centre for Policy Studies.

domingo, 22 de abril de 2018

"O QUE NÃO PODEMOS SABER" DE MARCUS DE SAUTOY

Editora Gradiva comemora Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

Informação recebida da Gradiva:

ACESSO ABERTO

Mensagem recebida do RCAAP:

Foi publicado um estudo q sobre Modelos, Políticas e Custos de Acesso Aberto, no âmbito da implementação da Política Nacional de Ciência Aberta. Este documento tem dados correspondentes a 2016 e foi realizado pela FCT, a pedido da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, integrando-se na estratégia nacional para a Ciência Aberta, impulsionada pelo MCTES.

Trata-se de um documento importante que produz uma análise sobre os seguintes aspetos:
  • Evolução da publicação científica
  • Modelos e meios de disseminação científica em Acesso Aberto
  • Políticas de Acesso Aberto
  • Custos de acesso
Conclui com um conjunto de resultados e recomendações com os quais pretende enriquecer a discussão sobre as diferentes alternativas de Acesso Aberto às publicações científicas.
O documento encontra-se disponível na página da Política de Acesso Aberto da FCT e na página da Ciência Aberta.

The Experimental and Historical Foundations of Electricity

Mensagem recebida do físico brasileiro Andre Assis: 

I am writing to inform about the publication of the Volume 2 of the book:

A. K. T. Assis, The Experimental and Historical Foundations of Electricity,
Volume 2 (Apeiron, Montreal), 306 pages, ISBN 978-1-987980-10-3 (print) and ISBN 978-1-987980-11-0 (PDF).

The book is freely available in PDF format, in English and Portuguese, at:

http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Electricity-Vol-2.pdf

http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Eletricidade-Vol-2.pdf

This work deals with the most fundamental aspects of physics. The book describes the main experiments and discoveries in the history of electricity.  It deals with attractions and repulsions, positive and negative charges, conductors and insulators, electrification by friction/contact/induction,
the triboelectric series, electrification of adhesive tapes, distribution of charges in conductors, electric equilibrium and the  instrument which indicates potential difference, electric shielding,  the power of points, sparks and electric discharges in air, electrets and the temporal preservation of the electrification of bodies,  the mysterious non-electrostatic forces, etc.  This work explains how to build several instruments: versorium, electric pendulum, electroscope, charge collector, circuit tester, electrophorus,  the Leyden jar and capacitors,  etc. All experiments are clearly described and performed with simple, inexpensive materials.

These experiments lead to clear concepts, definitions and laws describing these phenomena. Historical aspects are presented,  together with relevant quotations from the main scientists. A large bibliography is included at the end of the work.

The printed book, in English and Portuguese, can be ordered through Amazon:

http://www.amazon.com/dp/1987980107

http://www.amazon.com/dp/1987980093

I would appreciate if you might forward this information to your interested colleagues,  students, discussion groups and social networks.

-----------------
Andre Koch Torres Assis
Email: assis@ifi.unicamp.br
Institute of Physics, University of Campinas
13083-859 Campinas, SP , Brazil
Homepage: http://www.ifi.unicamp.br/~assis

OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA NA ANTENA 2


A Antena 2, rádio pública de teor cultural, iniciou, sob a direção de Luís Caetano, uma série de programas dedicados à nossa coleção das Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa.

Deixo aqui o link para que os interessados possam ouvir um dos programas já feitos com a particie Aida Sampaio Lemos, responsável pela supervisão linguística da nossa coleção:


ou (versão streaming):

ABEL SALAZAR NO "VISITA GUIADA"


Emissão do episódio do Visita Guiada sobre Abel Salazar na RTP2.
É já na próxima 2ª feira, 23 de Abril, pelas 23h15.
O vídeo-promoção já está disponível na página de facebook do Visita Guiada:

UMA REFLEXÃO SOBRE O MODERNISMO NA PINTURA, AO ALCANCE DE TODOS.

(Impression, soleil levant), 1872, Claude Monet.
O Modernismo foi um importante movimento cultural e artístico surgido no 3.º quartel do século XIX e bem afirmado na primeira metade do século XX, com conhecidas expressões na literatura, pintura, escultura, arquitectura, teatro, dança e música. Grandemente influenciado ou apoiado nas ideias filosóficas a circularem na Europa (Auguste Comte, John Stuart Mill, Friedrich Nietzsche e outros), nos múltiplos e admiráveis progressos científicos (lembremos as contribuições de William Kelvin, Alfred Nobel, Niels Bohr, Pierre e Marie Curie, Henri Becquerel, Rutherford Hays, Max Planck, Albert Einstein e muitos outros) e tecnológicos de então, o Modernismo ou Movimento Modernista surgiu como uma atitude intelectual de rompimento com a tradição e, ao mesmo tempo, de abertura a uma nova relação do homem com o mundo. Dito de outra maneira, o Modernismo, não só recusa os padrões antigos, como busca ideias na Revolução Industrial e da Fábrica, como nos notáveis avanços da ciência e da tecnologia, nomeadamente, a máquina a vapor, o comboio, o automóvel, o avião, a fotografia e o cinema.

No que se refere à pintura, os artistas acompanharam esta revolução na sociedade, criando novas respostas plásticas definindo movimentos mais restritos, geralmente referidos por estilos ou escolas. De entre eles, os historiadores e críticos de Arte, falam de Realismo, Impressionismo, Fauvismo, Futurismo, Cubismo, Neoplasticismo, Simbolismo, Expressionismo, Suprematismo, Dadaísmo, Surrealismo, Raionismo, Construtivismo. Nomes que os historiadores, críticos de Arte e outros eruditos “tratam por tu”, que “assustam” os muitos que nada sabem deste domínio da criatividade humana (e a Escola nada nos ensinou nestas matérias), mas que podem ser perfeitamente explicados por palavras que todos entendem.

Não é raro encontrar aspectos comuns entre alguns destes estilos ou escolas, havendo, porém, diferenças que os caracterizam e, até mesmo, os mostram como antagónicos.

O movimento modernista assentou na afirmação de que as formas tradicionais de vida do dia-a-dia das gentes estavam ultrapassadas e que, assim, havia que abandoná-las e substitui-las por outras entendidas como novas. Os modernistas propunham uma nova cultura, reexaminando todas as vertentes da vida em sociedade, do comércio à filosofia e à política, no caminho do progresso, numa convicção de o que era novo era, também, bom e belo, duas apreciações subjectivas, propícias à sempre salutar discussão. O Modernismo foi uma luta contra o passadismo, apontado como sério obstáculo à livre criação dos artistas, dirigida contra os padrões académicos das escolas de então e em luta pela abertura de novos horizontes.

A recusa à tradição que transparece no Impressionismo (o termo radica no nome do quadro a óleo “ Impression, soleil levant”, de Claude Monet, Paris,1872), faz deste estilo de pintura um dos primeiros movimentos ou escolas a incluir no âmbito do Modernismo. De início mais interessados no trabalho feito ao ar livre, do que no realizado nos “ateliers”, os impressionistas pioneiros defendiam que o que era dominante na nossa percepção dos objectos era a luz que reflectiam.

Impressionistas, com destaque para Pierre-August Renoir, Paul Cézanne, Edgar Degas, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh desinteressados das temáticas nobres ou o retrato fiel da realidade, afastaram-se do Realismo e do Academismo, pondo nas suas pinturas a obra em si mesma. Executavam-nas de preferência ao ar livre, procurando transportar para a tela as variações de cores que observavam na natureza.

O Modernismo em Portugal situa-se já em pleno século XX, na transição da Monarquia para a República, prosseguindo durante a ditadura do Estado Novo até, praticamente, o fim deste sufoco político. Almada Negreiros, Amadeu de Souza Cardoso, Maria Helena Vieira da Silva, Júlio Resende e muitos outros encabeçam este movimento. Entre nós o Modernismo ficou marcado por doses maiores ou menores de anarquismo, nacionalismo conservador de extrema direita e neorrealismos de esquerda.

A. Galopim de Carvalho

A "OCDE como instância de legitimação das políticas" educativas

António Teodoro, professor universitário, num artigo de opinião publicado no dia 5 de Abril no Diário de Notícias online com o título Incoerência nas políticas de ensino superior e ciência, detém-se na influência que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) tem ganho nas políticas educativas do ensino superior, destacando o caso de Portugal.

As considerações que faz aplicam-se a todos os níveis de ensino e o país poderia ser outro. De facto, independentemente do contexto, até partidário, a "narrativa" da OCDE impõe-se pelo mundo fora sem resistências, apenas com cedências, determinando o rumo da escola pública.

Recupero as passagens mais generalistas que traduzem bem esse rumo, e que não é visível para todos, pois a "narrativa" que o apresenta, esconde-o.
(...) não deixa de ser interessante a escolha da OCDE como instância de legitimação das políticas apresentadas, insistentemente presente nas notas introdutórias de quase todos os projetos de diploma apresentados. A OCDE é, reconhecidamente, o principal think tank internacional do projeto neoliberal: na economia, nas relações laborais, mas também na educação. 
A ironia é que o governo da geringonça, que se afirma de esquerda e adversário confesso das políticas neoliberais, tenha recorrido a essa legitimação (que, obviamente, não é "técnica" mas ideologicamente orientada). 
A OCDE não é a única organização internacional presente no espaço da "consultoria" internacional. Porque se omite sempre a UNESCO, com um imenso trabalho na educação (...) desde há décadas? (...) Será porque se teme que as recomendações não correspondam ao que se deseja? (...) 
Os projetos de diploma apresentados acentuam algo muito grave no discurso do atual (...): o conhecimento válido é aquele que tem valor de mercado. 
Todas as prioridades, todas as introduções, todos os discursos, incluindo a nova modalidade de mestrados em empresas, vão neste sentido (...). Mal vai um país que não valoriza o conhecimento crítico, reflexivo, "desinteressado". 
O discurso dominante é, em primeiro lugar, penalizador para as ciências sociais, para as artes, para as humanidades, mas também para áreas como as ciências da vida ou as matemáticas. Mas a prazo afeta todas as áreas do conhecimento e da cultura (...)
A construção de políticas de educação e ciência que juntem conhecimento e verdade (...), a justiça social tem um longo caminho ainda a percorrer. E essa é também a função dos intelectuais e dos cientistas que partilham esses valores. E não será seguramente numa leitura acrítica, tecnocrática, das agendas da OCDE que haverá políticas que privilegiem a justiça social."

sábado, 21 de abril de 2018

"Inteligência competitiva": mais uma "inteligência" entre muitas outras!

Imagem encontrada aqui.

A "inteligência" tem sido um conceito de primeira linha na psicologia, desde que se constituiu como disciplina científica. Mas, à semelhança de outros conceitos que explora - a atenção, a memória ou a motivação -, também este tem conduzido a dificuldades de definição e de operacionalização. Ainda assim, a investigação avançou de modo que temos hoje uma ideia mais concreta das capacidades que a integra e de como se podem desenvolver. 

Sendo psicologia a minha formação de base interessa-me sobretudo esta possibilidade por via da educação formal. De facto, sabemos hoje com grande certeza que a inteligência não é determinada à nascença ou até antes, depende substancialmente da estimulação proporcionada não só durante a infância mas ao longo da vida.

Foi, pois, com admiração e apreensão que vi, há alguns anos, entrarem no campo da educação expressões que dispersavam a inteligência, como entidade coesa, em múltiplas dimensões mais ou menos individualizadas, eram as "inteligências múltiplas" (interpessoal, intrapessoal, social, sinestésica, etc.

A essas "inteligências" juntaram-se outras como a afectiva, a emocional, a intuitiva, a espiritual. E claro, a artificial e a digital. Também há a positiva, a naturalista e a quântica. Mais recentemente, dei conta da empresarial e da financeira. E hoje descobri a 
competitiva.

inteligência competitiva é qualquer coisa! Encontrei uma revista que lhe é dedicada - aqui, livros - um exemplo aqui, pós-graduações - um exemplo aqui, vídeos dois exemplos aqui aqui, consultaria - um exemplo aqui). Com um suporte tão diversificado e um aspecto académico tão robusto quem se atreve a duvidar da sua existência e pertinência. Mais dia menos dia está no currículo escolar.

OS CAFÉS HISTÓRICOS NA EUROPA: O SEU LUGAR NA SOCIEDADE


Minha intervenção de hoje no Encontro Internacional de Cafés Históricos no Café de Santa Cruz em Coimbra:

O ensaísta Georges Steiner escreveu em "A Ideia de Europa" (Gradiva, 2005): "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (...) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia de Europa' "No Ano Europeu do Património Cultural celebramos os cafés históricos como locais patrimoniais da cultura.

Portugal é, sempre foi, parte da Europa e a confirmá-lo está o facto de aqui existirem alguns dos mais belos cafés históricos - de que é exemplo o magnífico Café de Santa Cruz de Coimbra que nos acolhe, hospitaleiro  como sempre.

Steiner enfatizou o papel dos cafés como lugares de cultura: a ideia de Europa é eminentemente uma ideia cultural. Em cafés como o de Santa Cruz, no encontro convivial das mentes  que a cafeína se encarrega de estimular, fez-se, faz-se cultura.

Há não só uma história que liga os europeus mas também, enraizada profundamente nessa história, uma arte (que se espraia em diversas formas que vão da literatura à música, passando pelas artes visuais e artes de palco) e uma ciência europeias, uma arte e uma ciência de que os cafés foram muitas vezes, na vida urbana, cenários propícios. Recordar o papel dos cafés europeus como lugares de cultura é também projectá-los para o futuro, porque a Europa só terá futuro se, com base na sua rica herança, alimentar um projecto cultural comum.

António Sousa Ribeiro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Daphne Cordeiro, professora na Universidade Fluminense e no ISCTE  e Fernando Franjo, jornalista espanhol e autor do livro "50 Cafés Históricos de España e Portugal" são, como eu, frequentadores de cafés. Eles trazem-nos aqui os seus depoimentos sobre o passado, o presente e o futuro dos cafés, com base nas  suas experiências à mesa dos cafés.

Os cafés continuam a  ser locais de cultura, numa sociedade com novos meios de comunicação, designadamente à distância? A dinâmica social das cidades ainda passa pelos cafés? Na sociedade de consumo de hoje o que pode levar os consumidores aos cafés?  E o que é que eles podem de lá levar?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

VALHA-NOS S. FRANCISCO



Meu artigo no "Diário de Coimbra" de ontem:

Embora o magazine Ticket que anuncia espectáculos em todo o país seja dominado por eventos em Lisboa e Porto, também se encontram eventos noutras cidades. Mas não se encontra nada que tenha lugar no Convento de S. Francisco em Coimbra, um equipamento que custou 42 milhões de euros e que devia ter projecção nacional. Planeado para ser um Centro de Congressos internacional está a falhar esse objectivo, pois a Câmara Municipal, detentora do equipamento, não conseguiu atrair congressos suficientes para garantir a necessária sustentabilidade (uma andorinha de um congresso de saúde não faz a Primavera!). Planeado também para ser um Centro de Cultura nacional, também tem falhado esse outro objectivo pois não existe uma programação coerente nem uma gestão autónoma que a permita concretizar. Pretendendo rivalizar com a Casa da Música ou com o Centro Cultural de Belém está muito longe dos padrões de excelência desses centros. Nem sequer chega ao Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Recebo os programas desses centros culturais mas nunca recebi informação nenhuma de S. Francisco. Consultado o respectivo website, encontro coisas avulsas, sem suficiente qualidade e acima de tudo sem qualquer coerência. A programação é o que calha, quando calha. Há muitos dias, demasiados dias, em que não calha nada. Valha-nos S. Francisco!

Vale mais a pena deslocar-me à Casa da Música ou ao Centro Cultural de Belém, ou, mais perto, ao Centro de Artes e Espectáculos do que ao Convento de S. Francisco pois esses centros têm uma programação regular de qualidade, que é divulgada com antecedência. Não percebo por que é que S. Francisco não tem um prospecto semelhante aos que recebo do Porto ou de Lisboa, ou da Figueira da Foz. O problema pode ser da gestão. Têm sido feitos contratos por ajuste directo e a prazo com pessoas do agrado político, que fazem sugestões. Mas tudo tem de ser aprovado pelo Presidente da Câmara. Os preços dos bilhetes são aprovados em reunião camarária, mesmo a posteriori. A cidade, os seus agentes e meios culturais, vivem desligados de S. Francisco. Perguntei já a várias pessoas da área da cultura de Coimbra e nunca ninguém me disse ter sido ouvido sobre S. Francisco. Perguntei a outras pessoas da mesma área em Lisboa e Porto, mas esses nem sequer sabiam o que era S. Francisco. Está à vista o seu fracasso não só como Centro de Congressos internacional mas também como Centro de Cultura nacional. Se falha nos congressos e na cultura para que serve? Parece que tem lá havido reuniões políticas: não sei se o aluguer foi pago, pois as contas de S. Francisco estão nos segredos dos deuses.

Coimbra tem, de facto um belo equipamento da autoria de um prestigiado arquitecto, mas é como se o não tivesse pois não o valoriza. O objectivo de S. Francisco é indefinido (as frases sobre a missão no website são absolutamente vazias). O modelo de gestão também não foi definido. E o elefante branco vai consumindo elevados recursos da Câmara, quer dizer de nós todos, sem que haja um benefício claro para todos. Coimbra continua uma cidade com história e património, mas sem uma identidade cultural que ligue o antigo e o moderno.

A última noticia sobre S. Francisco é que a Câmara de Coimbra quer lá colocar a colecção de fotografia do Novo Banco. O governo, de posse de um grande espólio fotográfico e sem saber o que fazer com ele, quer emprestá-lo à Câmara e esta, sem pensar, estendeu logo a mão ávida da esmola. Com certeza que a cidade, que tem a rica tradição dos Encontros de Fotografia realizados entre 1980 e 2000, pode exibir esse espólio, atraindo público da cidade e de fora. Mas o Convento de S. Francisco não foi feito para museu de fotografia e não tem as condições técnicas adequadas. A colecção nem sequer lá cabe. Para caber uma parte as mudanças estruturais seriam demasiado caras. De resto, a Câmara faria mal em gastar o seu dinheiro nisso quando não consegue manter a valiosa colecção dos Encontros de Fotografia, que está armazenado num exíguo espaço do Centro de Artes Visuais (CAV) sem ar condicionado e à mercê de infiltrações de água. Parece que o Secretário de Estado da Cultura, quando já sabia que o CAV estava condenado em primeira instância, foi visitá-lo como se nada soubesse. Ainda não se sabe se lhe vai dar os meios necessários para ele que a colecção possa ser não só mantida como mostrada.

Será que a Câmara vai pedir ao CAV para fazer a curadoria da mostra do Novo Banco? Será decerto necessário alguém competente que saiba organizar as fotografias do Novo Banco numa rede de salas que abranja a cidade e a universidade, como fizeram os Encontros de Fotografia e está agora fazer a Estação Imagem, uma iniciativa que desfruta do louvável apoio da Câmara de Coimbra. A Câmara tem feito tanta coisa mal na cultura que temos de lançar um foguete quando faz uma bem. Um foguete? Meio, pois “esqueceu-se” de associar os média locais…
*Professor da Universidade de Coimbra

BIOEMPREENDORISMO

quarta-feira, 18 de abril de 2018

OS NOSSOS "PERFIS SOMBRA"

Não precisamos de ter facebook para que lá constem informações sobre nós e, claro está, para que essas informações sejam recuperadas e agrupadas, constituindo o que se designa por "perfis sombra". Assim, potencialmente toda a gente está nessa rede. Não é legal nem é moral, mas faz-se. Eis o que o criador do facebook diz sobre o assunto:


Alguns artigos interessantes sobre o assunto podem ser encontrados AQUI, AQUIAQUI

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O PAPÃO DA MATEMÁTICA


Matemática é raciocínio puro, aristotélico, límpido, e o cérebro humano do século XXI, com milhões de anos de apuramento, excluídos os casos de deficiências clinicamente reconhecidas, tem plenas capacidades para se envolver com ela, com as suas regras e os seus símbolos.

Isto para dizer, preto no branco, que o insucesso de um aluno em matemática (como em outra qualquer disciplina), partindo do princípio não estar diminuído nas suas faculdades cerebrais ou perturbado por problemas comportamentais, só pode ser da responsabilidade do sistema educativo e/ou de quem lhe ministra o ensino.

“- A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder”. - Disse-me o meu professor, do segundo 7.º ano do Liceu (o actual 11.º), que tive de repetir, após reprovação no exame final do ano lectivo anterior.

A geologia, ramo do conhecimento no qual desenvolvi toda a minha actividade docente e de investigação, percorre muitos dos seus caminhos de mãos dadas com diversos domínios da matemática (trigonometria, cálculo diferencial, integral, vectorial e tensorial, mecânica, probabilidades, erros e estatística, entre os mais utilizados). Áreas de investigação como cristalografia, tectónica, geofísica, petrologia, geoquímica e sedimentologia não prescindem de uma ou outra destas ferramentas. Estou, pois à vontade para afirmar que, entre nós, povo, na grande maioria, inculto nesta e em muitas outras coisas do saber científico, generalizou-se uma injustificável vénia pela matemática, vénia que atesta este mesmo lamentável padrão nacional.

Nem sempre gostei de matemática. Aprendi a tabuada com a minha mãe que, enquanto costurava, me mandava recitá-la desde o dois vezes dois, quatro, ao nove vezes nove, oitenta e um, numa cantilena de que a minha geração se lembra com saudade. Na escola primária, vá que não vá, a aritmética e a geometria prenderam a minha atenção e até gostei de fazer aqueles problemas complicados, na 4.ª classe (4.º ano), de um tanque com 6,50 m de comprimento por 3, 20 m de largura e 1,75 m de fundo, recebe água de uma torneira, à razão de 7,5 litros por minuto. Quanto tempo demora este tanque a encher, até transbordar?

Mas no Liceu as coisas não correram tão bem, certamente por culpa minha, mas também, seguramente, por deficiência do professor que me coube em sorte, que me não soube abrir o caminho e estimular o suficiente e o necessário. Neste contexto, fui um aluno sofrível até ao 7.º ano (o actual 11.º), transitando de ano para sempre coxo, sem alegria e a muito custo como dizia o meu pai. E, como era previsível, nesse último ano, tive boas notas em todas as disciplinas, mas chumbei em matemática. E foi o melhor que me podia ter acontecido. Fiquei um ano a repetir esta matéria, mas desta vez, com um professor a sério, digno desse nome. Este, sim, um verdadeiro mestre a ensinar e a cativar os alunos. Era algarvio e, logo nas primeiras aulas, o Dr. Seruca procurou avaliar a bagagem dos seus novos alunos e eu era um deles.

- Se não souberes bem e se não te familiarizares com as bases da matemática, que são as coisas mais simples deste mundo, nunca gostarás desta disciplina. Pelo contrário, se aprenderes a lidar tu cá, tu lá com elas, irás ver que a matemática é como o ar que se respira. – E continuou. – A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder.

Na sequência desta conversa que, só por si, me predispôs a encetar uma nova maneira de ser aluno, passei a sentir prazer nas aulas deste professor. Voltei, por assim dizer, ao rés-do-chão da matemática e, encorajado e acompanhado por ele, fui subindo essa escada, ao longo desse ano, até ao patamar que, em cumprimento do programa, me era exigido. E passei no exame com uma boa nota que, associada ás obtidas nas outras disciplinas, me dispensaram do exame de admissão à Faculdade.

A. Galopim de Carvalho

PRÉMIOS UNICÓRNIO VOADOR: RTP1, MANUEL PINTO COELHO E FACULDADE DE FARMÁCIA DE COIMBRA

Já foram atribuídos pela Comcept os Prémios Unicórnio Voador, que distinguem o "melhor do pior": ver aqui.