segunda-feira, 24 de julho de 2017

AINDA O ANTIGO CURSO TÉCNICO INDUSTRIAL


“No mundo nada é verdade ou mentira: tudo depende do cristal com que se mira” (Ramón de Campoamor)
Antes de responder ao comentário de José Fontes, ao meu post  de ontem,  “Medina  Carreira: homenagem que lhe é devida”, farei, como que a modos preambular, duas citações separadas no tempo:
1.“Quando se olha com antipatia para o cisne branco até o cisne branco nos parece preto; quando se olha com simpatia para o rato preto até o rato preto nos parece branco” (Padre António Vieira).
2.“Os psicólogos sociais chamam erro de atribuição à tendência humana para desacreditarem um argumento apenas por causa das características que atribuem ao seu autor” (Rui Tavares, “Público”, 08/03/2007).
Ou seja, é indissociável o prisma com se discutem os assuntos com a isenção que merecem, daí eu dar um desconto generoso ao  remoque em que são metidos no mesmo saco do “abaixo assinado  (que para já tem apenas a assinatura pública de José Fontes)  todos “os Ruis Baptistas deste mundo. Chamem-se eles Ruis Henriques ou outros nomes” que nada têm a ver com este assunto.
Avesso a um diz-tu-direi- eu, julgo interpretarmos em leituras diferentes, a intervenção do deputado Proença Duarte na Assembleia Nacional (não confundir com Assembleia da República).  Assembleia da República que para prover à falta de operários especializados  teve a peregrina ideia de sancionar os actuais cursos “superiores” com a duração de dois anos (TESP) - medida  a exemplo da génese  dos actuais cursos do ensino politécnico, com a duração inicial de dois anos,  que agora choram barba e ranho para, depois de licenciaturas e mestrados, outorgarem  doutoramentos, -  em afronta aos antigos cursos “inferiores” das escolas industriais com a duração de 5 anos e uma forte componente teoria-prática traduzida em oficinas altamente apetrechadas.
Dando de barato, a sinceridade com que descreve a sua péssima docência na carreira docente do ensino técnico que não lhe deu a minha “visão idílica ” (sic.) deste ensino, a sua extinção, como diria Pessoa,  não passou de “um cadáver adiado que procria” abortos em barrigas de aluguer de um ensino superior como porta de cavalo, a exemplo das “Novas Oportunidades”, de acesso a licenciaturas ensino superior. Ou mesmo exigente ensino superior universitário que “exporta” para o estrangeiro diplomados que exemplifica. No seu comentário, com uma elite de engenheiros, cientistas, economistas, etc.
Eu, por meu lado, reporto-me, a uma minha recordada com saudade experiência deste tipo de ensino iniciado em finais dos anos 50 em confronto com a sua má vivência pessoal de um ensino situado em inícios dos anos 70,  depois de transvertido de reformas e contra-reformas. Contas feitas, entretanto, muitos assentos dos cadeirões da 25 de Outubro serviram de berço ao fenómeno da “diplomocracia”, para utilizar uma critica de António José Saraiva, que deu azo a que neste país fosse  anátema ser ministro sem um diploma universitário. E como todos os caminhos vão dar a Roma, uns por trilhos com sangue, suor e lágrimas, outros em arraiais de festança e regabofe, assiste-se a licenciaturas, em regresso de citação a António José  Saraiva,  "não para ter mais conhecimento ou para se ser mais esclarecidos, mas para não ser menos que os outros. Não é a igualdade da cultura que se busca, mas a igualdade de estatuto, através da posse do diploma”. E à pala de uma maneira viciosa  em que“há duas maneiras de mentir, uma é não dizer a verdade, outra é fazer estatística” (Francisco Leite Pinto), dá-se a conhecer ao mundo um país de Alice no país das maravilhas em que, sem generalizações  sempre perigosas de se fazer, se transmutam  analfabetos de ontem,  em burros de hoje, parafraseando Miguel Sousa Tavares, um caloroso defensor, para uns da Revolução, dos Cravos para outros o golpe de Estado de 25 de Abril. 
Isso mesmo, sobre perspectivas diferentes de um mesmo assunto, nos ensina Ortega y Gasset: “O que é a verdade? Do ponto de vista da verdadeira cultura, não é o mais importante de decidir. Cultura é, frente ao dogma, discussão permanente”!

Na foto: fachada  da antiga Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques.

domingo, 23 de julho de 2017

ASTROFÍSICA PARA GENTE COM PRESSA


Início do novo livro de Neil deGrasse Tyson :

"A história mais fantástica alguma vez contada

"O mundo tem persistido durante muitos anos,
depois de ter sido posto, pela primeira vez, no
movimento certo. E tudo decorre daí."
Lucrécio, ca 50 a. C.

No início, há cerca de catorze mil milhões de anos, todo o espaço e toda a matéria e toda a energia
do Universo conhecido estavam contidos num volume inferior a um bilionésimo do ponto final que termina esta frase.

O ambiente era tão quente que as forças básicas da natureza que descrevem colectivamente o Universo estavam unificadas. Embora ainda desconheçamos como surgiu, este cosmos mais pequeno do que a cabeça de um alfinete só podia expandir‑se. Rapidamente. Foi aquilo que hoje chamamos de Big Bang.

A teoria da relatividade geral de Einstein, apresentada em 1916, dá‑nos a perspectiva actual da gravidade, segundo a qual a presença de matéria e energia curva o tecido do espaço e do tempo envolvente. Nos anos 20, seria descoberta a mecânica quântica que forneceria a nossa explicação actual sobre tudo o que é pequeno: moléculas, átomos e partículas subatómicas. No entanto, estas duas visões da natureza são formalmente incompatíveis uma com a outra, colocando os físicos a competir na corrida a uma única teoria coerente da gravidade quântica que una a teoria das pequenas coisas com a teoria das grandes. Embora ainda não tenhamos chegado à meta, sabemos exactamente onde estão as barreiras mais altas. Uma destas barreiras situou‑se na «era de Planck» do início do Universo. Trata‑se do intervalo de tempo de t = 0 até t = 10^‑43 segundo (um décimo de milionésimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo) após o início, e antes de o Universo crescer até 10^‑35 metros (dez vezes um bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de metro) de diâmetro. O físico alemão Max Planck, cujo nome foi dado a estas quantidades inimaginavelmente pequenas, apresentou a ideia de energia quantizada em 1900, sendo habitualmente considerado o pai da mecânica quântica.

O confronto entre gravidade e mecânica quântica não coloca qualquer problema de ordem prática ao Universo contemporâneo. Os astrofísicos aplicam os princípios e ferramentas da relatividade geral e da mecânica quântica a categorias de problemas muito diversas. Mas no início, durante a era de Planck, o grande era pequeno, e suspeitamos que tenha havido uma espécie de casamento apressado entre os dois. Infelizmente, os votos trocados durante a cerimónia continuam a escapar‑nos, não existindo leis da física (conhecidas) que descrevam de modo fiável o comportamento do Universo durante esse tempo.

Contudo, supomos que até ao final da época de Planck a gravidade se tenha esquivado das outras forças da natureza, ainda unificadas, assumindo uma identidade independente tão bem descrita pelas nossas teorias modernas. À medida que o Universo crescia durante 10^‑35 segundos, continuou a expandir‑se, diluindo todas as concentrações de energia e o que restava das forças unificadas dividiu‑se em forças «electrofracas» e forças «nucleares fortes». Mais tarde ainda, as forças electrofracas dividiram‑se em forças electromagnéticas e forças «nucleares fracas», revelando as quatro forças distintas que conhecemos e amamos: com a força fraca a controlar o decaimento radioactivo, a força forte a unir o núcleo atómico, a força electromagnética a unir moléculas e a gravidade a unir a matéria sólida.

Entretanto, passou um bilionésimo de segundo desde o início.

Enquanto isso, a interacção entre matéria, sob a forma de partículas subatómicas, e energia, na forma de fotões (receptáculos sem massa de energia luminosa que são tanto ondas como partículas) foi incessante. O Universo estava suficientemente quente para que estes fotões convertessem
espontaneamente a sua energia em pares de partículas de matéria e antimatéria, que se aniquilaram
imediatamente a seguir, devolvendo a sua energia aos fotões. Sim, a antimatéria existe. E fomos nós que a descobrimos e não os escritores de ficção científica. Estas metamorfoses estão claramente patentes na mais famosa equação de Einstein: E = mc^2, uma receita bidireccional para saber quanta energia equivale à matéria e quanta matéria equivale à energia. O c^2 é a velocidade da luz
ao quadrado — um número enorme que, quando multiplicado pela massa, dá a quantidade de energia que obtemos realmente neste processo.

Pouco antes, durante e depois de as forças fortes e electrofracas terem seguido caminhos diferentes, o
Universo era uma sopa fervilhante de quarks e leptões, juntamente com os seus irmãos‑gémeos
de antimatéria, e os bosões, as partículas que permitem as interacções. Desconhece‑se se estas famílias de partículas são divisíveis em algo menor ou mais básico, embora cada uma surja em variedades diferentes. O fotão normal é um membro da família dos bosões. Os leptões mais conhecidos dos leigos são os electrões e talvez os neutrinos; e os quarks mais familiares são... bem, não há quarks familiares. Cada uma das suas subespécies recebeu um nome abstracto sem qualquer finalidade filológica, filosófica ou pedagógica, excepto a de a distinguir das outras: up (cima) e down (baixo), strange (estranho) e charmed (encantado), e top (topo) e bottom (fundo).

Os bosões, já agora, foram assim nomeados em honra do cientista indiano Satyendra Nath Bose. A palavra «leptão» vem do grego leptos, que significa «leve» ou «pequeno». Quark, porém, tem uma origem literária muito mais imaginativa. O físico Murray Gell‑Mann que, em 1964, propôs a existência de quarks como os constituintes interiores dos neutrões e protões, e que na altura pensava que a família de quarks tinha apenas três membros, retirou o nome de uma frase caracteristicamente
enigmática do livro Finnegans Wake, de James Joyce: «Três quarks para o Mr Mark!» Uma coisa
boa que os quarks têm: os seus nomes são simples — algo que os químicos, os biólogos e especialmente os geólogos parecem incapazes de conseguir quando dão nomes às suas coisas.

Os quarks são criaturas peculiares. Ao contrário dos protões, cada um com uma carga eléctrica de +1, e dos electrões, com uma carga de –1, os quarks têm cargas fraccionais de um terço. E nunca apanhamos um quark sozinho; cada um está sempre a agarrar outros quarks nas proximidades. De facto, a força que mantém dois (ou mais) quarks juntos torna‑se efectivamente mais forte quanto mais os tentarmos separar — como se estivessem ligados por um certo elástico subnuclear. Se separarmos
com suficiente intensidade os quarks, o elástico rebenta e a energia armazenada segue a equação E = mc^2 para criar um novo quark em cada extremidade, deixando‑nos exactamente como começámos.

Durante a era dos quarks e dos leptões o Universo era suficientemente denso para que a separação média  entre quarks isolados rivalizasse com a separação entre quarks unidos. Nessas condições, o compromisso entre quarks adjacentes não podia ser estabelecido inequivocamente e estes circulavam livremente, apesar de estarem colectivamente ligados. A descoberta deste estado de matéria, uma espécie de caldeirão de quarks, foi relatada pela primeira vez em 2002, por uma equipa de físicos dos laboratórios nacionais de Brookhaven, Long Island, Nova Iorque.

Existem fortes provas teóricas que sugerem que um episódio no Universo primordial, talvez durante uma das separações das forças, terá dotado o Universo de uma notável assimetria, segundo a qual as partículas de matéria quase não ultrapassavam as de antimatéria: mil e um milhões para mil milhões. Dificilmente notaríamos a pequena diferença de população no meio desse contínuo de criação, aniquilação e recriação de quarks e antiquarks, de electrões e antielectrões (mais conhecidos por positrões), e de neutrinos e antineutrinos. O fulano  estranho tinha «montes» de oportunidades para encontrar alguém com quem se aniquilar, tal como todos os outros. Mas não por muito tempo. À medida que o cosmos continuou a expandir‑se e a arrefecer, ficando maior do que o nosso Sistema Solar, a temperatura desceu rapidamente abaixo de um milhão de milhões de kelvins.

Entretanto, passou um milionésimo de segundo desde o início.

(...)"

Neil de Grasse Tyson

ALENTEJANOS


Novo texto de Galopim de Carvalho:

Os vestígios mais antigos da presença dos nossos antepassados em terras do Sul do País remontam ao Paleolítico e estão representados, em especial, por utensílios em pedra lascada encontrados, em abundância, nos terraços fluviais de alguns dos seus rios, e por não menos importantes gravuras rupestres, como as trazidas às primeiras páginas dos jornais, na sequência dos trabalhos na barragem de Alqueva. Primeiro como recolectores, apanhando bolotas nos então muito mais cerrados montados, pescando e caçando, estes nossos longínquos avós acabaram por se tornar pastores e agricultores. Tal fixação levou à construção dos primeiros povoados nas colinas sobranceiras aos principais cursos de água. A densidade de construções megalíticas (antas, menhires e cromeleques), característica ímpar desta região, testemunha a importância da sociedade agropastoril que aqui teve berço há mais de 5000 anos.

Durante mais ou menos tempo, ligures, celtas, fenícios, gregos, cartagineses e romanos, ocuparam terras do Algarve e do Alentejo ou por aqui passaram, uns nas suas rotas comerciais e outros em busca do ouro, da prata, do cobre e do estanho, com particular relevo para os romanos. Estes, chegados no século III a.C., deixaram-nos importantes marcas civilizacionais da sua ocupação e do domínio político que exerceram durante, pelo menos, meio milénio. Antes de serem Alentejo e Algarve, estas terras constituíram parte da “Hispania Ulterior” (a mais afastada, em oposição a “Hispania Citerior”) na sequência da divisão administrativa criada na Península pelo invasor. Estas mesmas terras foram, mais tarde, a metade sul da “Lusiânia”, a mais ocidental das três províncias ibéricas do Império Romano (“Lusitania”, “Betica” e “Tarraconensis”).

Outra importante presença, que ainda hoje se faz sentir, foi a islâmica, iniciada no século VIII com a conquista de Mértola, por Muçá ben Nusayr, pondo fim à dominação visigótica, a última das invasões levadas a efeito por povos do norte da Europa (vândalos, suevos e visigodos), habitualmente referidos como bárbaros (a palavra provém do grego antigo, βάρβαρος (“barbarós”, que  qualificava todos os que não eram gregos). A ocupação muçulmana teve aqui uma longa permanência, cerca de cinco séculos, que só terminou com a reconquista cristã do Reino de Portugal, no século XIII.
Com a islamização, estas terras fizeram parte do “Garb”, que quer dizer Ocidente, designação naturalmente usada pelos que vinham de oriente, neste caso, os invasores árabes. Mais precisamente, o seu nome foi “al Garb al-Andalus”, que significa o ocidente da Hispânia, que incluía, não só, o Algarve como também o Alentejo e a Andaluzia, a oriente do Guadiana

Um parêntesis  para lembrar que Odiana ou Uadiana foi o nome deste importante curso de água, que foi fronteira entre os reinos de Portugal e de Leão e Castela. Odiana sobreviveu à reconquista, no século XIII, e assim se manteve, por mais três centenas de anos, na linguagem dos portugueses. Por seu lado os castelhanos transformaram o “uadi” (rio), radicado na região ao longo de cinco séculos de ocupação islâmica, em “guadi”, elemento que ainda hoje compõe o nome de muitos rios do sul de Espanha, como Guadalimar, Guadalupe, Guadojoz e o mais conhecido de todos, o grande Guadalquivir. Guadiana é, assim, um nome importado que se impôs em virtude da sua posição raiana e que, a partir do século XVI, substituiu o antigo Odiana, influência que não se verificou com os nomes Odeleite, Odiáxere e outros com a mesma raiz, correspondentes a rios mais afastados da influência castelhana.

A civilização muçulmana deixou aqui muito dos seus saberes, não só os tidos por eruditos, como os do melhor aproveitamento da terra. À unidade de coabitação entre a Andaluzia, o Alentejo e o Algarve, durante mais de um milénio, criada pelos invasores romanos e continuada pelos conquistadores islâmicos, seguiu-se a separação, delineada ao sabor da reconquista cristã e das disputas fronteiriças entre o reino de Portugal e o de Leão e Castela, ao longo do Guadiana. Não é, pois, por acaso, que há bastantes traços comuns entre “nuestros hermanos andaluces” e os alentejanos, por um lado, e entre estes e os algarvios, por outro. «Mediterrâneo por natureza e atlântico por posição», como nos ensinou o Prof. Orlando Ribeiro, os parâmetros fisiográficos desta região marcaram as populações que aqui viveram, do mesmo modo que continuam a marcar o alentejano e o algarvio dos dias de hoje.

Após a reconquista, concluída por D. Afonso III, e na sequência da reorganização territorial, foi criada a comarca de “Antre Tejo e Odiana” (Entre Tejo e Guadiana), designação antiga que resistiu ao tempo através da poética de Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco, e que corresponde, grosso modo, ao actual Alentejo. Anteriormente, o termo Alentejo, como nome de região, não existia. Com o significado de “para além do Tejo”, esta designação foi criada pelos conquistadores vindos do norte, do jovem reino de Portugal. O “Ultra Tagum”, no latim dos eruditos de então, deu algo foneticamente muito próximo de “Alem Tejo”, no dialecto romance galaico-prtuguês, que era o que se falava aí, ao tempo dos nossos primeiros reis. Tendo este grande rio ibérico por fronteira natural, as terras que lhe ficavam a sul estavam, pois, para além dele (“para além do Tejo”).

No que respeita esta que é a mais extensa região do País, a sua diversidade geográfica e geológica determina que, dentro de uma certa unidade, como é muitas vezes apresentada, haja diferenças sensíveis de local para local. Há um Alentejo interior, a oriente, semiárido, dominado pela azinheira, e um outro, a ocidente, menos seco, influenciado pelos ventos húmidos do Atlântico, onde o montado de cortiça impera. Por outro lado, a escarpa de falha da Vidigueira, um acidente tectónico que limita a sul a serra de Portel, marca igualmente, como um degrau, a separação entre duas superfícies bem assinaladas pelos geógrafos, a de Évora, a norte, mais elevada e acidentada, e a de Beja, a sul, mais rebaixada e de mais vastas planuras. São ainda Alentejo os alagadiços campos de arroz da bacia do Sado, os densos pinhais da franja litoral e o extenso areal e os alcantilados da linha de costa.

O substrato geológico e os condicionalismos climáticos que caracterizam o Alentejo foram favoráveis à vegetação que aqui se desenvolveu, parte dela indígena e outra parte introduzida, bem como à ocupação animal, também ela autóctone e importada. O montado e o porco preto dele dependente, a vinha, o olival e a seara de pão, a ”tetralogia mediterrânea”, no dizer de Alfredo Saramago, constituem elementos maiores tradicionalmente referidos nesta paisagem que, como todos sabemos, ficou marcada por um regime de «Terra pouca para muitos, terra muita para poucos», como cantou Manuel Alegre, em 1996.

São alentejanos os madeireiros serranos de Portalegre e os seareiros das planícies que se estendem para Sul. São alentejanos os cultivadores de sequeiro, os regadores do vale do Caia e os que vivem dos campos aluviais dos seus grandes rios. . Mas não são menos alentejanos, quase sempre esquecidos, os pescadores na longa faixa litoral, que se estende da restinga de Tróia às falésias atlânticas do Algarve, por toda a Costa Vicentina. Fala-se do falar alentejano, da cozinha alentejana, dos cantares do Alentejo e contam-se divertidas anedotas, visando os seus habitantes.

Há uma trintena de anos transportei comigo, vinda do Alentejo interior, uma comadre de visita a uma filha residente em Almada. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha amiga que, pela primeira vez, saía do seu cantinho, dava mostras de um certo mal-estar. «Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços!», dizia para mim. E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, ouvi-a exclamar: «Aqui, sim, já a gente respira!». Em sua opinião, voltáramos ao Alentejo. E tinha razão!

Administrativamente integrada na Estremadura, a península de Setúbal só a ela se liga pela Ponte 25 de Abril e pelo grande fluxo de cidadãos, que, de uma e de outra banda do chamado Gargalo do Tejo, o atravessam diariamente nos dois sentidos, a caminho do trabalho e no regresso a casa. Como geólogo e curioso nas duas vertentes da geografia, a  física e a humana, contactei de muito perto com os terrenos e também com as gentes desta região, tendo tido oportunidade de constatar aqui a continuidade territorial e cultural do Alentejo. São as fábricas de cortiça e de transformação de carne de porco, são os mercados, onde não faltam o pão e o queijo alentejanos, os poejos, os cardinhos e as beldroegas, são os restaurantes, as tabernas e as vendas à moda antiga, as colectividades culturais e recreativas.

Alentejanos somos todos os da margem esquerda do Tejo e se o nome nada tem de especial, quando dito por alguém da margem norte, constitui um paradoxo sempre que são os próprios alentejanos que assim se autodenominam, uma vez que, sendo e estando do lado sul do Tejo (para eles o lado de cá, e, portanto, aquém do Tejo) se estão a afirmar além dele, como bem lembrou o Prof. José Mattoso. Alentejano é, pois, o nome pelo qual esta comunidade se autoidentifica sem se dar conta que, em rigor, o termo só faz sentido quando dito por estremenhos, beirões, minhotos ou transmontanos. Nunca por eles próprios e, muito menos, por algarvios. Nestas condições dever-nos-íamos considerar “aquentejanos”, sugestão, aliás, já avançada no século XIII, mas que não fez vencimento. Com efeito, dois documentos assinados em Beja, em 1284, auto-situam-se no “Aaquem Tejo”.

Galopim de Carvalho

sábado, 22 de julho de 2017

A vida imortal de Henrietta Lacks

Um filme de base científica.


MEDINA CARREIRA: HOMENAGEM QUE LHE É DEVIDA



Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras": 

“É fundamental que o estudante adquira uma percepção nítida dos valores” (Albert Einstein). 

Henrique Medina Carreira (1930-2017) foi advogado, Subsecretário de Estado do Orçamento e Ministro das Finanças. 

Todavia, não é do seu currículo profissional, político ou televisivo que me ocuparei essencialmente (outros o fizeram e continuarão a fazer, em poética camoniana, com “engenho e arte”), mas da sua formação académica inicial obtida no antigo ensino técnico dos Pupilos do Exército.

Sobre a incontornável personagem televisiva de Medina Carreira, deu boa conta Anabela Mota Ribeiro quando escreve: “Aprecia as pessoas com fulgor. Não aprecia os patetas, os trafulhas, os corruptos. A estes, não respeita” (“Jornal de Negócios”, Outubro 2009). 

Ao contrário de certas viúvas que em vida dos maridos dizem deles cobras e lagartos mas que em seus funerais, exaltam, em lágrimas copiosas, as suas excelsas virtudes, e em uso costumeiro nacional homenageia-se em vida tanto imbecil deixando cair no esquecimento gente de altíssimo valor.

Em abjuração desta espécie de epidemia, reporto-me a um artigo de opinião que escrevi acerca da forma elogiosa com que Medina Carreira se refere à sua formação académica inicial a cargo do ensino técnico industrial: “Medina Careira e o antigo ensino técnico” (“Público”, 15/05/2014).

Este tipo de ensino diplomou outras personalidades de destaque na sociedade portuguesa, cujos nomes me ocorrem ao dedilhar das teclas do computador como, por exemplo, António Saraiva, ex-presidente da CIP, e Maldonado Gonelha, antigo ministro do Trabalho.

 Pela minha vivência docente, em início de carreira na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, arrogo-me ao direito de testemunhar um ensino técnico exigente e devidamente dignificado pese embora ser considerado, por pretensiosas elites, parente pobre do antigo ensino liceal. Este statu quo obriga-me a repudiar vozes oficiais que tentam convencer a opinião pública da bondade do boom operado no actual sistema educativo, sem ter em conta a respectiva qualidade, traduzido em aumentos exponenciais de cidadãos, de posse de diplomas de ensino superior, mas que pouco sabem de teoria e muito escasseiam em  know-how. Aliás, isto mesmo foi criticado, depois de 25 de Abril, de forma lapidar, por Francisco de Sousa Tavares, um antissalazarista confesso: ”Dantes Portugal era um país de analfabetos, hoje é um país de burros diplomados”!

Souberam os diplomados pelo extinto ensino industrial vivenciar a “percepção nítida de valores” , defendida pelo autor da Teoria da Relatividad , transportando-a para a sua vida futura, através, de uma comovente homenagem de um antigo aluno aos seus professores da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque da antiga capital de Moçambique. Dela tomei conhecimento ocasional na Net, infelizmente sem conseguir nomear o nome do respectivo subscritor pela minha esmaecida memória que não atenua, de forma alguma, o remorso do meu esquecimento. Transcrevo-a:

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente, que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca. Ainda hoje, e eu faço notar isso a meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

 É este extinto ensino técnico, viveiro de antigos alunos, hoje, excelentes profissionais reconhecidos pela qualidade do ensino ministrado por grande maioria dos seus docentes de Lourenço Marques que devia merecer a contrição dos políticos que, em nome de uma sociedade sem classes, a transformaram numa sociedade desclassificada académica e profissionalmente em deplorável medida tomada por próceres de um um país que, segundo António José Saraiva, figura chave da cultura portuguesa, “vive há séculos na superstição da palavra ‘doutor’”!

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Novidades da Gradiva de Julho

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Novos livros já  disponíveis :
Da autoria do mais famoso dos astrofísicos actuais, este livro contém o essencial sobre o Universo. Qual é a natureza do espaço e do tempo? Como é que nos encaixamos no Universo? E como é que o Universo se encaixa em nós? Nestas questões não há melhor guia do que Tyson. A verdade é que, nos dias que correm, poucos têm tempo para contemplar o Cosmos, mas neste livro Tyson trá-lo até ao leitor de uma forma breve e clara, com uma inteligência cintilante, em curtos capítulos que se podem ler a qualquer hora e em qualquer lugar, ao longo do seu dia agitado. Enquanto espera pelo café, pelo autocarro, pelo comboio ou pelo avião, Astrofísica para Gente com Pressa revelar-lhe-á tudo o que precisa para compreender os próximos títulos da imprensa sobre o Cosmos: do Big Bang aos buracos negros, dos quarks à teoria quântica, e da procura de exoplanetas à busca de vida no Universo.
«Tyson apresenta a ciência de uma forma brilhante e extraordinariamente acessível... [As suas] ideias são valiosas para qualquer líder, professor, cientista ou educador.»
Forbes
Col. Ciência Aberta |176 pp. | ISBN: 978-989-616-781-3 | €11,00

Os livros de Joaquim Silva Pinto são um contributo precioso e frequentemente surpreendente para a história dos últimos anos de Salazar, do período marcelista, em que foi uma das personalidades mais activas da ala liberal, e do pós 25 de Abril, em que integrou o MASP, sendo um colaborador próximo de Mário Soares. A qualidade intelectual que é unanimemente reconhecida ao Autor, a rara possibilidade que teve de uma visão de conjunto que lhe permitiu privilegiadamente identificar os contrastes, a vivência pessoal singular, a coragem desassombrada e a narração incisiva e colorida tornam a leitura dos seus livros um raro e enriquecedor prazer intelectual.
Populismo à portuguesa, «evoluçãozinha» na continuidade, figuras públicas entre afectos e carências, diáspora portuguesa em Madrid de 75 a 78, episódios quase desconhecidos das circunstâncias da iniciativa de edificação da ponte sobre o Tejo e da reeleição de Américo Tomás, apontamento sobre preconceitos antes e depois da Revolução de Abril, atribulado processo de sucessão – destino das condecorações e uma polémica dedicatória a José Veiga Simão são alguns dos episódios contados ou tratados no livro.
Factos dramáticos ou divertidos, observações irónicas, inquietações. Sempre com o objectivo de fazer reflectir sobre o passado, mas também sobre o futuro pró­ximo, que o Autor, informadamente, pensa vir aí.

Col. Fora de Colecção| 160 pp. | ISBN: 978-989-616-779-0 | €14,00

História do Sexo - História da Sexualidade Ocidental em BD
Temos a impressão de que a sexualidade é omnipresente. Contudo, quem sabe o que é e de onde vem? Quem a compreende verdadeiramente? Este importante aspecto da vida dos seres humanos é muitas vezes descurado no ensino, mesmo a um nível superior. Foi por essa razão que o antropólogo e sexólogo Philippe Brenot nos quis contar esta história apaixonante. Igualmente para nos mostrar que a sexualidade não é apenas um fenómeno natural, mas também uma realidade cultural que se foi forjando ao longo da História. Ao ler esta história da sexualidade em banda desenhada vai aprender muitas coisas: por exemplo, que Cleópatra inventou o vibrador e que a invenção do microscópio, de autoria holandesa, levou à diabolização da masturbação…
Col. Fora de Colecção| 208 pp.| ISBN: 978-989-616-780-6 | €22,00

O que acontece quando estamos com dores de cabeça?Para que servem os dedos dos pés?Porque há puns mais fedorentos do que outros? Glenn Murphy responde a estas e a outras questões importantíssimas neste livro divertido e informativo. Repleto de ilustrações e de factos sobre toda a espécie de coisas incríveis – crostas, células e ossos partidos e doenças mortais – este livro não tem nenhuma parte chata!
Col. Gradiva Júnior | 160 pp. | ISBN: 978-989-616-778-3 | €10,00

Um arquitecto senta-se no banco da estação ferroviária de Santa Apolónia enquanto aguarda que chegue a hora de partir para o estrangeiro, após responder a um anúncio. Perdeu o emprego e no seu país não consegue encontrar alternativa, por isso aceitou um trabalho como carpinteiro numa propriedade agrícola localizada no hemisfério de baixo… A tarefa para que foi contratado não envolve o desenho de edifícios, mas sim uma estranha sucessão de esculturas em sete pilares de madeira, numa comunidade onde cada um dos membros também foi obrigado a abandonar a sua forma de vida anterior e recomeçar do nada.
A odisseia de um desempregado dos tempos modernos.Enquanto isso há um segundo dilúvio em curso. Milhares de anos após a sua primeira operação de salvamento, Noé desiste de construir uma segunda Arca e percorre o planeta num dirigível, recolhendo os sobreviventes a quem irá permitir uma nova vida num pequeno país à beira do Atlântico.
Col. Gradiva |176 pp. ISBN: 978-989-616-777-6 | €12,50

Todos os sonhos do mundo


Informação editorial sobre um livro do Desidério Murcho:


"Há mais coisas nos céus e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia", declara Hamlet na peça de Shakespeare. Contudo, quando se aproxima o Verão português, é mais justo dizer que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes. É uma ironia subtil que a imprensa cultural portuguesa reaja ao Verão armada de policiais, quando a filosofia nasceu há 2500 anos num país cujo clima estival é muito semelhante ao nosso: a Grécia. "Filosofia" e "Verão" não rimam, dizem-nos. Contudo, parecem não apenas rimar como ser congéneres.

A filosofia não é senão o estudo de problemas que podemos caracterizar como "conceptuais". A filosofia não é sociologia de café, nem psicologia especulativa, nem poesia em prosa. A filosofia ocupa-se de problemas para os quais não há métodos formais ou científicos de solução. Problemas como a natureza da existência e da verdade, do bem moral e do conhecimento; e problemas mais concretos como a eutanásia ou o aborto, os direitos dos animais ou a natureza da arte.

O coração da filosofia é a argumentação, e por isso o conhecimento da lógica, formal e informal, é uma condição sem a qual não é possível estudar filosofia. Não basta proferir um pensamento filosófico para ele poder ser aceite como moeda legítima; é preciso que esse pensamento resista ao nosso melhor olhar crítico. Que razões há em seu favor? E que razões há contra ele?

Tomemos um exemplo: a ideia muito popular de que "tudo é relativo". A filosofia liberta-nos do dogmatismo que consiste em repetir sem pensar que tudo é relativo só porque está na moda pensar que tudo é relativo. A filosofia permite-nos dar um passo atrás e olhar criticamente para os nossos preconceitos culturais. Que razões temos para pensar que tudo é relativo? E são essas razões também elas relativas? Mas nesse caso tanto podemos aceitá-las como não as aceitar e portanto a ideia de que tudo é relativo não consegue desalojar a ideia contrária — que é a ideia de que algumas coisas não são relativas, e não a ideia plausivelmente falsa de que nada é relativo. Argumento e contra-argumento, exemplo e contra-exemplo — é este o coração da filosofia, que nos devolve o gosto pelo pensamento sem peias, pela tentativa inelutável de resolver problemas, melhorar teorias, encontrar argumentos. O que se pode perfeitamente fazer à beira-mar, conversando com outro ser humano. Ao Sol.

O julgamento do macaco


Scopes Monkey Trial (Imagem obtida no google)

O dia 21 de Julho é uma marca histórica para os defensores do papel da ciência na educação e, em particular, da biologia evolutiva. Hoje celebra-se uma das datas associadas ao “Scopes Trial” ou, como é vulgarmente conhecido, o Scopes Monkey Trial (O Julgamento do Macaco; 1925). John Scopes, então professor de biologia de secundário em Dayton, desafia a lei estatal ao ensinar evolução aos seus estudantes. Acusado, apresentou-se em tribunal e assim se fez história. O julgamento do macaco atraiu os destaques e machetes Estadunidenses para pequena cidade de Dayton em Tennessee, lançando a discussão do papel da ciência no ensino e questionando o fundamentalismo e literalismo bíblico.

John Scopes havia sido avisado. O “Butler Act” havia entrado em vigor no estado do Tennessee e era claro: professores das escolas públicas do estado não poderiam negar a origem bíblica da espécie humana. Ensinar evolução biológica era ilegal pois a doutrina creacionista detinha a exclusividade curricular. Deus fizera homens à sua imagem e o universo fora criado em 7 dias, ponto. Sob aviso que Scopes ensinaria evolução biológica aos seus alunos, os inspectores deslocaram-se à sala de aula e esperaram que o professor ensinasse a sua lição. De forma engendrada e num movimento contra a lei, Scopes dá o corpo às balas e é acusado de ensinar evolução e condenado a tribunal.

Várias personalidades deslocaram-se à pequena cidade de Dayton e o evento foi noticiado por todo o país. Do lado da doutrina religiosa alinhava William Jennings Bryan, candidato (derrotado) por três vezes à presidência dos Estados Unidos pelo partido democrata. O seu oponente, advogado de defesa de Scopes, Clarence Darrow era um reconhecido advogado nacional. Darrow havia preparado o seu caso e voara professores e cientistas para testemunhar. Destes, apenas um zoólogo foi reconhecido como testemunha válida, colocando em cheque a estratégia planeada. Então, de forma ousada, Clarence Darrow convoca o seu próprio adversário como testemunha do seu caso, questionando-o acerca das suas crenças e do conhecimento bíblico. Darrow questiona Bryan acerca do literalismo bíblico de Adão, Eva e Cain, entre outros, tentando ressalvar as diferenças entre crença, e conhecimento.

Dia 21 de Julho marca o dia do veredicto do julgamento. Scopes foi declarado culpado e a pagar 100 dólares americanos (aproximadamente 1400 dólares ajustados à inflação actual) por infrigir a lei. Mas o impacto engendrado pela American Civil Liberties Union havia sido feito: discutiu-se o papel da ciência e da religião na educação, questionou-se o fundamentalismo e doutrinas religiosas e questionou-se a legitimidade bíblica na imposição e estabelecimento de  leis.


Hoje a pequena cidade de Dayton celebra e vive em torno do “Julgamento do macaco” e relembra-nos do papel da ciência na educação. Pessoas de diversas partes do mundo juntam-se em Dayton para palestras organizadas pela universidade de Tennessee e para um festival de verão. Existe uma cervejaria associada que vende a Evolution IPA. Para os mais interessados, encontrarão um filme acerca do julgamento: Inherit the Wind (o vento será a tua lembrança).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUE É FEITO DO “PERFIL DO ALUNO”?


Meu artigo convidado no "Observador" de hoje:

Em 13 de Março passado terminou a discussão pública, suscitada pelo Ministério da Educação, de um documento com o pomposo título “Perfil do Aluno para o Século XXI”. Escrevi sobre ele uma crónica na Público (“O novo PREC”), na qual chamava a atenção para o perigo de mais uma reforma educativa, que era, ao fim e ao cabo, o que estava a ser congeminado sob a égide do tal documento. Defendi que deviam acabar as reformas educativas sempre que o ministro mudava. Alunos, professores e escolas precisam acima de tudo de estabilidade.

Uma sólida preparação de base nas disciplinas em que o saber humano está desde há séculos distribuído, como o Português, a Matemática, a História ou a Física, era o que eu esperaria para os alunos no final do 12.º ano, que desejavelmente iriam seguir para estudos superiores. Ora o dito “Perfil” não reconhece a relevância dos saberes disciplinares, pretendendo substituí-los por “competências”, definidas de forma vaga como “combinações complexas de conhecimentos, capacidades e atitudes” (p. 12). Temendo que os leitores não entendam, o documento ilustra as “competências” com um boneco a cores, vindo da OCDE, que faz lembrar uma trança. A palavra “competências” está omnipresente, aparecendo 54 vezes ao longo das 14 páginas do texto. As competências preferidas são as “competências-chave”, que são dez como no Decálogo.

O “Perfil” repete uma mão cheia de lugares comuns, alguns importados da OCDE e outros nem isso. O que há de novo, ou sequer de substantivo, em frases nada claras como, por exemplo, esta: “A educação permite fazer conexões entre o passado e o futuro, entre o indivíduo e a sociedade, entre o desenvolvimento de competências e a formação de identidades” (p. 7)? Ou estoutra: “a flexibilidade é instrumental para se dar a oportunidade a cada um de atingir o perfil proposto, de forma coerente, garantindo a todos o acesso às aprendizagens” (p. 8)? Entre os chavões recorrentes estão, além das “competências” e do “perfil”, o “desenvolvimento”/”desenvolver” (40 vezes), a “consciência”/”consciente” (17 vezes), a “sustentabilidade”/”sustentável” (12 vezes) e a “criatividade”/“criativo” (12 vezes). Em contraste, a palavra “exigência” só aparece três vezes enquanto a palavra “disciplinas” surge uma única vez.

Mas o documento não se limita a repetir ideias feitas. Propõe-se mudar o ensino. O Conselho Nacional da Educação salientou que o “Perfil” implicava uma mudança curricular. O que se pretende fazer, embora de forma encapotada, é reorganizar o currículo, isto é, mudar os conteúdos e práticas lectivas. Não é por acaso que a “aprendizagem” (13 vezes) domina o “ensino” (5 vezes). E também não é por acaso que a “tecnologia” (20 vezes) domina a “ciência” (11 vezes). O “Perfil” quer “organizar o ensino prevendo a experimentação de técnicas, instrumentos e formas de trabalho diversificados, promovendo intencionalmente, na sala de aula ou fora dela, actividades de observação, questionamento da realidade e integração de saberes” (p. 18). Eu tenho pena dos alunos que, se o documento vinga, vão ter de experimentar “técnicas, instrumentos e formas de trabalho”. E tenho também pena dos professores que, mesmo estando seguros de técnicas que praticaram ao longo da vida e comprovadamente funcionam, como o “ensino directo”, vão ter de experimentar o que não funciona bem, pelo menos de forma generalizada, como “projectos”.

Para concretizar o novo modelo educativo o Ministério criou um grupo de trabalho multidisciplinar (do qual excluiu a Sociedade Portuguesa de Matemática, que acaba de ganhar o Prémio Gulbenkian Conhecimento, pela promoção do sucesso escolar), solicitando-lhe que reduzisse o currículo ao essencial do essencial. Chama-se “emagrecimento curricular”. A ideia não é “encolher os miúdos”, mas sim encolher o que os miúdos aprendem.


Qual é o ponto da situação? Temendo um alvoroço nas escolas por altura das autárquicas, o primeiro-ministro mandou reduzir a grandiloquente reforma a um ensaio controlado: a mudança deveria ser experimentada num grupo de escolas que se voluntariariam para o efeito. Esteve bem António Costa, ao limitar os danos. Mas o novo ano lectivo está à porta e desconhece-se a lista das escolas-piloto, o que vão ensinar e como vão ensinar. Sabe-se apenas que serão criadas duas novas disciplinas (“Cidadania e Desenvolvimento” e “Tecnologias da Comunicação e Informação”) e que as escolas poderão gerir até 25% da carga horária. Não existe ainda o “Perfil” revisto de acordo com os pareceres recebidos nem existem as conclusões do grupo do “emagrecimento curricular”. O ministério da Educação queria alterar a educação a seu bel-prazer, mas parece que o princípio da realidade se impôs ao princípio do prazer. 

NOVA "ATLANTIS"


A revista "Atlantís" acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Atlantís - review
v. 16 (2017)

Sumário

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[Recensão a] PINHEIRO, P.: Aristóteles. Poética. Edição bilíngue. Tradução, introdução e notas (São Paulo, Editora 34, 2015)

Irley Fernandes Franco

[Recensão a] GARCÍA VIVAS, G.: Octavia contra Cleopatra. El papel de la mujer en la propaganda política del Triunvirato (44-30 a.C.) (Madrid, Liceus Ediciones, 2013).
João Paulo Valério

[Recensão a] LAES, C. & STRUBBE, J.: Youth in the Roman Empire. The Young and the Restless Years? (Cambridge, University Press, 2014).
Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] VIEIRA, C. et alii: Platão. Crátilo, ou sobre a correcção dos nomes. Texto bilíngue grego-português, tradução de Celso de Oliveira Vieira, apresentação de Miriam Campolina, introdução de Marcelo P. Marques (São Paulo, Paulus, 2014).
José Trindade Santos

[Recensão a] FINGLASS, P.J. & KELLY, A. (eds.): Stesichorus in Context (Cambridge, University Press, 2015).
Sofia Gil Carvalho

[Recensão a] GARCÍA GUAL, C.: La venganza de Alcmeón. Un mito olvidado (Madrid, Fondo de Cultura Económica, 2014).
Marta González González

[Recensão a] ROSE, Ch. B.: The Archaeology of Greek and Roman Troy (New York, Cambridge University Press, 2014).
Renata Cardoso de Sousa

[Recensão a] CALABI, F.: Fílon de Alexandria (Filone di Alessandria). Tradução de José Bortolini (São Paulo, Paulus, 2014).
Rodrigo Pinto de Brito

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Atlantís

PARABÉNS SPM!

A Sociedade Portuguesa de Matemática - SPM recebe na quinta-feira o Prémio Gulbenkian Conhecimento, no tema "Promoção do Sucesso Escolar", por causa do seu prolongado e  notável trabalho nas Olimpíadas de Matemática. Parabéns Jorge Buescu, Presidente da SPM, em nome de todos os matemáticos que têm colaborado nessa iniciativa.

Quem fica mal com este prémio é a Secretaria de Estado da Educação que, inexplicável e teimosamente, tem recusado a participação da SPM na revisão curricular que está a empreender.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A MORDAÇA NOS COMANDANTES DE BOMBEIROS


A proibição de os comandantes de bombeiros operacionais distritais poderem falar aos jornalistas é decerto um atentado à liberdade de informação a que temos direito mas, acima de tudo, um atentado à segurança: pode  acontecer que um desses comandantes tenha de comunicar um alarme em directo na televisão, um aviso de prevenção, ou um pedido de evacuação. Agora tudo tem de ser retransmitido (será via SIRESP?) para Carnaxide, para o Comando Nacional da Protecção Civil, e de lá passar ao país, passadas algumas horas. Pobre país, que continua mais centralizado do que nunca. Dantes era o Terreiro do Paço, agora com a timorata descentralização, é o Centro de Comando de Carnaxide!

FÍSICA DE COIMBRA SEM DESEMPREGO

A informação vale o que vale, mas a notícia deve ser espalhada para os actuais candidatos so curso de Física. O curso de Física da Universidade de Coimbra, onde sou professor (ensinei no semestre passado Mecânica Quântica II, História da Física e Comunicação Científica eTécnica) é um dos 16 cursos do país sem desemprego...Não é só medicina...

http://observador.pt/2017/07/19/cursos-de-medicina-nao-sao-os-unicos-com-0-de-desemprego-conheca-os-16-cursos-que-garantem-pleno-emprego/

A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, O FUTURO DO EMPREGO E A EDUCAÇÃO

Meu artigo no mais recente número dos Cadernos de Economia, dedicado ao futuro do trabalho:

A expressão “Indústria 4.0” ou “Quarta Revolução Industrial” é cada vez mais recorrente. O conceito, bastante recente, pretende designar a indústria do futuro, embora há quem diga que essa revolução já começou. O que é a “Indústria 4.0”? Se a Primeira Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII com o desenvolvimento da máquina a vapor, consistiu no aproveitamento da força motriz da água aquecida para libertar o homem e os animais dos trabalhos mais pesados, a Segunda Revolução Industrial, que surgiu já a meio do século XIX, consistiu na mudança das máquinas a vapor para máquinas eléctricas, graças aos avanços feitos no electromagnetismo. Foi nessa altura que foram construídos os dínamos e se tornou possível a electrificação. No final da Segunda Guerra Mundial, surgiu a Terceira Revolução Industrial com o desenvolvimento da electrónica, tornada possível pela invenção do transístor. De então para cá, o avanço do digital tem sido em crescendo, com os primeiros computadores pessoais na década de 80 e a World Wide Web na década de 90 no século passado. Na sequência, a Quarta Revolução Industrial consistirá não apenas no uso dos robôs, máquinas electrónicas que hoje são comuns nas instalações fábris e ideais para a realização de tarefas repetidas, mas, também, na combinação do seu trabalho com uma série de tecnologias já estabelecidas, como as redes de comunicação rápida (que ligam hoje os computadores em todo o mundo), ou em vias de estabelecimento, como a “Internet das Coisas” (uma rede de sensores ubíquos), a cloud ou “computação em nuvem” (isto é, o cálculo conjunto de vários computadores situados algures), a impressão tridimensional (que permite criar rapidamente objectos à medida), os algoritmos de big data (que permitem extrair conclusões de uma multidão de números), a realidade virtual ou aumentada (que permite criar mundos simulados assaz realistas), e  inteligência artificial (o projecto, com alguma coisa de utópico, de imitação do cérebro humano por uma máquina).Embora ninguém saiba ainda muito bem o que virá a ser a “Indústria 4.0”, pois há muitos processos diferentes a ser testados, o termo refere-se aos tipos de manufactura cada vez mais inteligente que estão a aparecer com a disponibilidade de computadores e redes de computação cada vez mais evoluídas.

Uma ilustração das novas capacidades oferecidas pelo digital foi demonstrado na maior feira da indústria da Europa, realizada em Abril passado em Hannover, na Alemanha: um robô jogava ténis de mesa com qualquer pessoa. Foi aliás no quadro da indústria alemã, onde a robotização é hoje muito visível (basta olhar para as modernas linhas de montagem de automóveis das marcas mais conhecidas), que surgiu o termo “Indústria 4.0”. Em 2012 foi criado pelo governo federal um grupo de trabalho a quem foi pedido um exercício de prospectiva sobre o futuro da indústria. Os especialistas concluíram que os processos de manufacturação irão funcionar através de sistemas complexos de máquinas, instalações, produtos e logística. Os desafios são grandes e múltiplos. Por exemplo: que papel fica para os seres humanos, em particular quais serão as consequências para os empregos, quais serão os perfis profissionais previsíveis e quais serão as novas necessidades de formação?

É sempre difícil fazer previsões. Einstein, cuja família aproveitou no fim do século XIX as oportunidades da segunda vaga da Revolução Industrial, afirmou: “Nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar.” De facto, ele que foi um dos pioneiros da teoria quântica não anteviu as tremendas consequências que ela traria para a sociedade com o aparecimento dos transístores. Mas parece claro, se olharmos para as revoluções industriais anteriores, que haverá mudanças substanciais no trabalho humano. É um facto que a automação veio eliminar nos anos mais recentes numerosos postos de trabalho, tanto nas fábricas como nos serviços (por exemplo, já quase não há portageiros, substituídos por robôs, assim como há cada vez menos funcionários bancáerios substituídos pelos próprios clientes, que usam o homebanking) e tudo indica que essa tendência vai continuar. Segundo um relatório do Forum Económico Mundial, nos próximos dez anos haverá menos cinco milhões de postos de trabalho nos 15 países mais industrializados do mundo. Alguns empregos que hoje existem deixarão  simplesmente de existir, enquanto serão criados novos empregos, cujo número não compensará o dos postos de trabalho perdidos (o valor referido de cinco milhões é um saldo negativo, entre empregos destruídos e criados). A robotização em curso coloca questões sociais muito relevantes, às quais a economia e a política têm de responder. Por exemplo: Será sustentável o sistema de segurança social? Fará sentido taxar robôs? Haverá acréscimo de riqueza suficiente para assegurar para todos um rendimento mínimo garantido? E que farão as pessoas sem trabalho?

Uma vez que as tarefas de rotina são as mais fáceis de robotizar, parece também claro que o papel humano será mais de criação e não tanto de execução. No entanto, como os sistemas serão cada vez mais complexos, a criatividade humana revelar-se-á   cada vez mais necessária. Os mais criativos serão evidentemente os vencedores, o que ao fim e ao cabo não é nada de novo. E, uma vez que a criatividade necessita de terreno sólido para crescer, uma preparação superior será cada vez mais precisa. Também aqui não há nada de novo: a sociedade tem vindo a reconhecer o valor do ensino superior, porque percebe que os empregos menos qualificados são aqueles com maior probabilidade de extinção.

Parece  ainda  claro que, numa sociedade onde a indústria funciona em rede, a escola, seja no nível básico e secundário seja no nível superior, deve preparar para esse funcionamento em rede. O mundo é global e a escola deve ser, em certa medida, também global. Estou em crer que a profissão de professor, que é intermediador das aprendizagens pessoais, não é das que está mais em risco. Nos anos 80 e 90, julgava-se que o ensino futuro fosse todo por computador, mas isso não aconteceu. Quer dizer, o ensino formal continua  a ter por base o contacto humano, embora se tenha de reconhecer que boa parte do ensino informal passa hoje pela Internet. A informação já está e estará cada vez mais acessível em todo o lado e há que saber não apenas recolhê-la, mas sobretudo interpretá-la e, a seguir, tomar as melhores decisões. Tudo isto é e será feito e  em equipa, quer dizer em pequenas redes humanas. Como devem as escolas, os professores, os currículos adaptar-se às novas exigências? Na reflexão sobre o futuro da escola, convém não esquecer o essencial. É preciso acima de tudo assegurar que o mundo permaneça humano, o que quer dizer que a sociedade não deverá nunca ver as tecnologias como um fim mas sim como um meio para uma vida melhor. É preciso, por exemplo, reflectir sobre uma carta aberta subscrita, entre outros, pelo astrofísico Stephen Hawking, pelo empresário Elon Musk e pelo linguista e activista político Noam Chomsky e pelo responsável pela área de inteligência artificial da Google e divulgada em 2015 pelo Future of Life Institute, chamando a atenção para os perigos que os avanços na inteligência artificial podem ter para a própria sobrevivência da humanidade. E, se o robô que hoje joga ténis connosco, começar amanhã a disparar outra coisa que não bolas?