segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Natália Nunes, (1921-2018) : Bibliografia na Universidade de Coimbra



Atrás de uma grande mulher está sempre um grande homem. Atrás da escritora Natália Nunes, que faleceu recentemente com 96 anos, estava Rómulo de Carvalho, seu marido. A estreia literária de Natália Nunes dá-se quando reside em Coimbra, sendo o marido professor de Física e Química no Liceu D. João III. O poeta António Gedeão nasceu em 1956, tendo o verdadeiro autor escondido o seu nome sob pseudónimo. Pediu ao editor da Atlântida para enviar o livro a Natália e perguntou-lhe, curioso, o que achhava (de início, nem a mulher sabia quem era Gedeão). Mas Natália Nunes estreou-se antes de Gedeão: em 1955 publicou o romance "Autobiografia de uma mulher romântica". Eis a lista dos livros da escritora existentes nas bibliotecas da Universidade de Coimbra (não se incluem traduções de autores como por exemplo Dostoievsky e Balzac):

Autobiografia de uma mulher romântica : romance - Lisboa : Sociedade de Expansão Cultural, 1955.

A mosca verde e outros contos. - Coimbra : [s.n.], 1956.

Regresso ao caos : romance. - Fundão : Jornal do Fundão, 1960.

Assembleia de mulheres : romance. - [Lisboa] : Portugália, [1964?]

A bastarda. - [Lisboa] : Portugália Editora, 1966.

Está morta e Coração débil. - Lisboa : O Livro de Bolso, 1966.

Jamais. - Lisboa : Portugália Editora, 1966.

Ao menos um hipopótamo  ; desenhos de Lima de Freitas. - Lisboa : Estudios Cor, 1967.

O caso de Zulmira L. - Lisboa : Atlântida, 1967.

Tecnicidade e realidade [Mimeog.] : condições concretas de trabalho nas bibliotecas e arquivos portugueses /  - Porto : Biblioteca Pública Municipal, 1968.

Informação histórica a colher nos livros de registo paroquial : II secção. III Encontro dos Bibliotecários e Arquivistas Portugueses, Porto : Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1968. 

O problema da transliteração dos caracteres do alfabeto russo para o alfabeto português : I secção. Porto : Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1968.  6 f.  III Encontro dos Bibliotecários e Arquivistas Portugueses.

Cabeça de abóbora. - Lisboa : Distribuição Quadrante, 1970.

A nuvem : estória de amor. - Lisboa : Sociedade de Expansão Cultural, 1970.

As batalhas que nós perdemos : interpretações literárias . - Porto : Liv.Paisagem, 1973.

Confrarias, irmandades, mordomias : inventário de uma colecção de Livros de Registo Paroquial existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo... - Lisboa : Associação Portuguesa dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, 1976.

Memórias da escola antiga  - 1ª ed. - Lisboa : Didáctica, 1981.

As velhas senhoras e outros contos  - Lisboa : Relógio d'Água, cop. 1992

A ressurreição das florestas  - Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, imp. 1997.

Vénus turbulenta : romance  - Lisboa : Relógio d'Água, cop. 1997. 

Dia nacional da cultura científica : colectânea de estudos históricos de Rómulo de Carvalho / com  Fátima Nunes. - Évora : Universidade, D.L. 1999

No catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal existem mais títulos.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Um debate sobre a educação escolar à escala mundial

Na coluna de opinião do jornal Público de anteontem, foi publicado um texto assinado pelo grupo de consultores do Projeto da OCDE Future of Education and Skills 2030, a saber: João Costa, Secretário de Estado da Educação, Portugal; Suzanne Dillon, Subinspectora-geral, Departamento de Educação e Competências, Irlanda; Kan Hiroshi Suzuki, Consultor Executivo do Ministério da Educação, Desporto, Cultura, Ciência e Tecnologia, Japão; Moonhee Kim, Ministra, Delegação Permanente da República da Coreia na OCDE, Coreia do Sul; Jørn Skovsgaard, Conselheiro Sénior de Educação, Ministério da Educação, Dinamarca. Assina também "em colaboração com a OCDE" Andreas Schleicher, Director de Educação, OCDE

O texto intitulado Educação para um mundo melhor: um debate em curso a uma escala global deve ser lido com a maior atenção por todos aqueles que têm responsabilidades directas na educação escolar, em especial os professores e os directores. Aí se explica o rumo que foi, há muito, traçado para essa educação, ainda que só em tempos mais recentes se tenha dado conta efectiva dele.
"Estamos todos convidados a perguntar qual o melhor modelo de aprendizagem que ajudará os alunos a ter sucesso no desenho do mundo sobre o qual agirão.
Enfrentamos hoje desafios sem precedentes — sociais, económicos e ambientais — provocados por uma globalização em aceleração e por um muito mais rápido desenvolvimento tecnológico. Paralelamente, estas forças conferem uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano. O futuro é incerto e não o conseguimos predizer; mas é preciso estar disponível e preparado para esse futuro. 
As crianças que entram nos sistemas educativos em 2018 serão jovens adultos em 2030. As escolas têm de os preparar para empregos que ainda não foram criados, para tecnologias que não foram ainda inventadas, para resolver problemas que ainda não foram antecipados. Aproveitar oportunidades e encontrar soluções será uma responsabilidade partilhada. 
Temos a responsabilidade de educar estas crianças, tornando-as competentes, equipadas com o conhecimento, as capacidades, as atitudes e os valores que os tornam capazes de ser os construtores de um futuro melhor. 
Estamos todos convidados a perguntar qual o melhor modelo de aprendizagem que ajudará os alunos a ter sucesso no desenho do mundo sobre o qual agirão.  
Através do projeto da OCDE O futuro da educação e competências 2030, 29 países e economias estão a colaborar para a encontrar perguntas para duas perguntas prementes:
- De que tipo de conhecimentos, capacidades, atitudes e valores vão necessitar os estudantes para ter sucesso e modelar o seu mundo? 
- Como podem os sistemas educativos desenvolver esse conjunto de competências? 
O projeto não procura estabelecer uma abordagem uniforme para os sistemas educativos, porque isso não ajudaria a responder a estas questões. Pelo contrário, fornece uma plataforma para o desenvolvimento de uma compreensão partilhada sobre desenho curricular. 
Estudantes preparados para o futuro precisam de ser agentes ativos quer na sua própria educação, quer na sua própria vida. Ser agente implica um sentido de responsabilidade para participar no mundo e, assim, influenciar pessoas, eventos e circunstâncias para o que é melhor. Ser agente assenta no poder de modelar um propósito e identificar ações para o conseguir. 
Uma educação de sucesso prepara jovens que pensam por si só e trabalham e vivem com os outros. Isto implica desenvolver a capacidade de resolver problemas complexos, de questionar a sabedoria estabelecida, integrando conhecimento emergente, de comunicar eficientemente e de promover o bem-estar. 
Os jovens precisam do conhecimento que é adquirido sem o recurso único a rotinas de memorização. Formas múltiplas de avaliação, metodologias ativas de ensino e aprendizagem, trabalho interdisciplinar, trazendo o mundo real para dentro da sala de aula — estes são ingredientes nucleares para este objetivo de promover uma aprendizagem melhor e mais profunda. 
A partir das Competências Chave (desenvolvidas no projeto OCDE DeSeCO – Definição e Seleção de Competências), o projeto Educação 2030 identificou três categorias adicionais, conhecidas como Competências Transformadoras:- Criar novos valores: é necessário pensar criativamente, desenvolver novos produtos e serviços, novos empregos, novos processos e métodos, novas formas de pensar e viver, novas empresas, novos setores, novos modelos de negócio e novos modelos sociais. Cada vez mais, a inovação não emerge de indivíduos que pensam e trabalham sozinhos, mas da cooperação e colaboração que permitir criar novo conhecimento a partir do conhecimento existente. - Reconciliar tensões e dilemas: é hoje necessário pensar de forma mais integrada para impedir conclusões prematuras e reconhecer interconexões. Num mundo de interdependência e conflito, os indivíduos assegurarão com sucesso o seu bem-estar, o das suas famílias e das suas comunidades, somente através do desenvolvimento desta segunda competência transformadora: a capacidade de reconciliar os seus próprios objetivos com as perspetivas dos outros.- Assumir responsabilidade: lidar com a novidade, a mudança, a diversidade e a ambiguidade assume que os indivíduos podem pensar autonomamente e trabalhar com os outros. De igual modo, a criatividade e a resolução de problemas requer a capacidade para considerar as consequências futuras das ações de cada um, para avaliar risco e recompensa, e para aceitar a responsabilização pelos produtos do trabalho desenvolvido. Isto sugere um sentido de responsabilidade, e maturidade moral e intelectual, com a qual uma pessoa pode refletir sobre as suas ações e avaliá-las à luz das suas experiências e dos objetivos pessoais e da sociedade, à luz dos que lhes foi ensinado e dito, e à luz dos que está certo ou errado. 
Muitos atores são chamados a desempenhar um papel para que estas competências possam ser desenvolvidas. Para ajudar a desenvolver o compromisso e a capacidade de ser agente naqueles que aprendem, precisamos não só de reconhecer a sua diversidade individual e o seu potencial, mas também de reconhecer que o conjunto mais largo de relações que influenciam a sua aprendizagem — com os seus professores, os seus colegas, famílias e comunidades.  
Um conceito fundamental que subjaz a este modelo de aprendizagem é, portanto, o de “co-construção” — as relações interativas de suporte mútuo que ajudam os alunos a progredir em direção aos seus objetivos. Neste contexto, todos devemos considerar-nos aprendentes, não apenas os alunos, mas também os professores, as escolas, os decisores políticos, as famílias e as comunidades. Se a aprendizagem está no centro, é crítico o desenvolvimento de comunidades de aprendizagem."

Dos Castelos em Espanha do meu Pai ao meu País dos Sonhos Azuis


"Des Chateaux en Espagne de mon Père à mon Pays des Rêves Bleuscooperativa aldoa5r
 é o título do último livro de Manuel Paiva (na imagem), professor de Física emérito da Universidade Livre de Bruxelas, que passa parte do seu tempo nos Estorninhos, uma aldeia da Serra Algarvia, com uma vista para o mar que está retratada na capa.  O livro, pequeno (83 páginas) e em edição de autor  (Tipografia Tavirense, Outubro de 2017), não tem ISBN. Julgo que o autor só o fez para o distribuir a família e amigos, embora saiba que está em preparação uma edição em português.

Trata-se de um livro de memórias, largamente auto-biográfico, mas que cruza os temas da vida familiar do autor com  informações muito interessantes sobre o espaço e a descoberta espacial (designadamente sobre as novidades na exploração de Marte, de cometas, de Saturno e suas luas, e de planetas extraterrestres), assuntos em que Manuel Paiva se tornou especialista e nos quais é excelente divulgador. "Construir castelos em Espanha" é uma expressão francesa que significa "fazer projectos irrealizáveis",  "ter esperanças quiméricas".  A expressão resume os vários negócios e ideias de negócio do pai do autor, comerciante do Porto em vários ramos, que aparece num retrato antigo na contracapa ao lado da mãe.  Por outro lado, o país dos sonhos azuis é Portugal (o céu azul do Algarve enche a capa), mas remete também para o imaginário infantil, pois nas histórias de Winnie the Pooh (o Ursinho Pooh) que os netos de Manuel Paiva tanto apreciam existe uma floresta dos sonhos azuis. O livro cobre, portanto, o arco familiar, que vai da recordação mais antiga do pai, a montar a cavalo na Cooperativa da Freguesia de Aldoar, Porto, até à família internacional contemporânea, pois Manuel emigrou nos anos 60 para a Bélgica onde casou com uma professora de Física de origem russa e criou a sua família.

A referida cooperativa tem raízes familiares pois foi fundada por um tio-avô do autor (do ramo da mãe, um político do tempo republicano, anticlerical e maçon como se usava na época), numa casa dos seus antepassados, em frente da sua casa de infância, na Rua da Vilarinha. O pai vem de uma família de comerciantes conservadores, tendo casado em 1930. Manuel Paiva nasceu em 1943, quando o pai era chefe de contabilidade da Casa Ferreirinha do Porto. É um pouco da história de Portugal no tempo do Estado Novo que o livro trata, vista por um prisma familiar, incidindo particularmente  sobre a pequena burguesia do Porto. Durante a Segunda Guerra Mundial  o pai deixou a casa de vinho do Porto onde trabalhava, onde podia ter ficado até uma tranquila reforma, para criar uma empresa que produzia embalagens para o vinho do Porto. Mas o negócio faliu, como haveriam de falir vários outros negócios em que se meteu, praticamente todos. Haveria de ser sócio num negócio de tinturaria, que lhe correu mal por ter sido enganado por outro sócio. Haveria de ser proprietário do Aviário da Vilarinha nos anos 50, que seria aproveitado mais tarde, falhada a criação de frangos, para criar coelhos e chinchilas, o que também falhou. Entrou na pequena política ao tornar-se presidente da Junta de Freguesia de Aldoar, lugar do qual de demitiu. Tentou,  sem sucesso, contsruir uma máquina de palitos de dentes. Criou uma firma de "import-export", que importou a cerveja Carlsberg mas que não conseguiu  exportar botões de uma fábrica local. As ideias do pai Paiva  eram, por vezes, mirabolantes: quis, por exemplo, que o filho seguisse Engenharia Química para fazer comprimidos de vinho do Porto destinados à exportação para Japão. Mas o filho inscreveu-se antes em Engenharia Electrotécnica na Universidade do Porto, curso que não completaria por entretanto ter ido para a Bélgica estudar Física (o que não o impediu de mais tarde ser membro convidado do Conselho Geral da Universidade do Porto).  Pegando numa ideia lida num jornal belga por ocasião do casamento do filho, o pai tentou criar uma agência matrimonial em Portugal, o que foi mais um empreendimento mal sucedido.... Manuel Paiva esteve largos anos sem vir a Portugal nos últimos anos do Estado Novo, mas voltou com a esposa em 1973 quando já era cidadão belga e portanto não podia ter problemas com o serviço militar português. O pai ensaiou na época criar uma instalação de energia solar, mas o filho, de posse de conhecimentos de física, fê-lo descer a terra. O pai não desistiu do seu espírito inventivo:  lembrou-se de construir uma turbina  eólica  de eixo vertical... Confidenciou ao filho a certa altura que gostaria que ele dissesse que o pai tinha imaginação, frase com a qual o filho não teve qualquer relutância em concordar. O pai tinha uma imaginação transbordante. Mais tarde, inventaria um jogo parecido com o "scrabble", que chegou a propor, mais uma vez sem sucesso, à televisão portuguesa. Nos últimos dias da sua vida escreveu artigos anti-religiosos e propôs-se mesmo fazer uma associação de ateus, para a qual chegoua redigir um manifesto. Ainda escreveu um livro sobre Fátima, que nunca chegou a sair. Em 1999, morreu no sono, como  desejava, depois de ter escrito as suas últimas vontades. Paiva fala neste seu livro com carinho da sua família: fala mais do pai do que da mãe, mas deixou linhas muito calorosas sobre a mãe, que o aconselhou sempre a deixar o pai ocupado com as suas lucubrações.

Este livro, muito curioso e muito agradável de ler, junta-se a outros do mesmo autor, que têm circulação bem menos restrita e que, nalguns casos também têm aspectos auto-biográficos:  "Diálogos sobre Portugal", com Mariana Pereira, Livros & Leituras, 1998, com tradução saída em Bruxelas prefaciada por Hubert Reeves; "Como respiram os astronautas", que é o volume 136 da colecção Ciência Aberta da Gradiva, 2004, reeditado mais tarde com algumas mudanças na mesma colecção; "Descobre o Céu", um livro de ciência infantil, com Constança Providência, Nuno Crato e eu próprio, Bizâncio, 2005; "À espera de Godinho", com Amadeu Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa e José Morais, Bizâncio, 2008; e, "Portugal e o Espaço", volume 59 dos ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016. O autor escreve com fluência, num estilo bastante vivo e atraente, por vezes com fina ironia. Vê o país à distância muito melhor do que muitos vêem ao perto. Este é um depoimento muito humano que aproveita para divulgar a ciência (em capítulos que aqui não resumi) ao mesmo tempo que apresenta a extraordinária vida da sua família, centrada na figura do seu pai.

"ESPAÇO PARA ALGUNS"


Encontrei o livro numa feira de velharias a um euro. Comprei-o não apenas pelo preço mas também e sobretudo pelo título, bem achado. Aberto o livro logo percebi que era uma peça de teatro de ficção científica de uma autora nacional, Maria da Graça de Athayde (1906-2001), dada à estampa, nas Edições Panorama, do SNI (a agência de propaganda do regime anterior), em 1962. Foi o primeiro livro da autora, publicado por ter ganho o prémio "Originais manuscritos de teatro" do SNI de 1961, mas ela haveria de publicar outros. Não conhecia o nome da autora, mas, pesquisando na internet, encontrei no mercado normal uma única obra, "Três mistérios" (Sopa de Letras), embora também estivesse noticiada a republicação em Ponta Delgada (a autora é açoriana) das duas memórias em três volumes, intituladas "Uma vida qualquer", com prefácio de Guilherme de Oliveira Martins, que parece ser um documento precioso para se conhecer a vida lusitana nos tempos do Estado Novo. A mãe da autora, Maria Emília Brum do Canto Hintze Ribeiro, era bisneta de José do Canto (estudado por Maria Filomena Mónica) e sobrinha neta do Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, que foi ministro nos últimos anos da monarquia. Um filho foi membro do governo de Marcello Caetano. Um seu neto preside hoje à Ordem de Malta.

 Passado algures no século XXI, o enredo de "Espaço para Alguns" conta os preparativos de uma viagem à Lua, o primeiro voo comercial ao nosso satélite, depois de alguns voos pioneiros. Lembro que terá sido escrita no início da era espacial pouco antes do presidente John Kennedy ter anunciado que os americanos haveriam de ir à Lua ainda na década de 60 (12 de Setembro de 1962 num estádio do Texas). O 1.º acto passa-se numa "noite do futuro, no último andar de uma casa do futuro". A circunstância é a festa dos cem anos de um senhor, António Vasconcelos de seu nome, já com bisnetos, que vai viajar para a Lua. O jantar de anos é português à moda antiga, sem "as "facilidades enlatadas, comprimidas, enriquecidas de vitaminas e coisas sintéticas" que nesse futuro imaginado se usavam: Era um "jantar honesto", com canja tradicional, arroz de pato, peru recheado, porco assado e, à sobremesa, o "imprescindível leite creme".  O neto Salvador, de 37 anos, comenta que nunca na sua vida tinha visto nada disso, habituado que está a refeições de comprimidos.   A reunião familiar é uma festa de despedida do velho, que é um visionário, e quer ir para a Lua. Pede, em discurso, para ser recordado como um avô "cheio de sonhos irrealizáveis, transbordante de utopias! Era aquele velhinho centenário que antes de partir para a Lua já lá estava". Claro que a acção, recheada de peripécias sentimentais, é um bastante "naif", mas serve para ver como na altura se imaginava o futuro. Havia um regime capitalista semelhante ao do tempo da autora que lançava "impostos de emergência" mas era maior o papel da mulher: os diplomatas eram equipas de um homem e uma mulher. O 2.º acto passa-se numa repatição do Ministério do Espaço.  Denotando um certo feminismo da autora, surge uma senhora engenheira, Stella Margarida d'Alte, que ajudou a construir a nave espacial e que foi sorteada para, em nome da equipa construtora, viajar. Stella tem 30 anos, é "bonita e desempenada", mas veste com severidade".  Stella reencontra aí Salvador, que  conhecia da infância. É um reencontro romântico, e ("spoiler alert") no final a engenheira acaba por ficar na Terra, acompanhada pelo seu "salvador" (a engenheira é substituída pelo primeiro suplente, o "José Ninguém"). O 4.º acto passa-se numa "aerogare do futuro",  um aeroporto espacial que imita um aeroporto dos anos 60. A bordo, além do velho, acabam por partir um industrial, Samuel Dourado, que subsidiou o projecto, uma corista. Luna Violante,  que lhe fazia companhia que, trocando as voltas ao seu par, se apaixona por um outro passageiro bem-falante, o Tristão Félix (vagabundo, com formação em filosofia) e o Padre Mateus Homem. Há aqui alguma crítica social, ou melhor de costumes. Aparece também um representante do governo que vem apresentar cumprimentos de despedida.  A nave parte. A última fala é a de Stella, que se sente salva na Terra: "Leva-me para os teus dias, Salvador..."

Trata-se, portanto, um enredo romântico com um fundo futurista. Não foi uma obra literária durável. Trago-o aqui porque, estando esquecido nos alfarrabistas, e não sendo muito rica a ficção científica portuguesa, este será um dos textos pioneiros de ficção científica teatral em português, pelo menos, sobre temas do espaço.  Ingénua, mas é uma peça engraçada.             

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A ILUSTRAÇÃO CIENTÍFICA COMO EXPRESSÃO VISUAL DA COMUNICAÇÃO PARA A CIÊNCIA



Na próxima 4ª feira, dia 21 de Fevereiro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra  A Ilustração Científica como expressão visual da comunicação para a ciência”, por Lúcia Antunesuma das mais destacadas ilustradoras de ciência portuguesa


Lúcia Antunes - Créditos Espiral do tempo / Paulo Pires


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"A Ilustração científica como a compreendemos hoje em dia existe desde que os primeiros exploradores procuraram registar e explanar as suas descobertas. Vários tinham alma de artista e desenhavam os seus achados, ou delegavam a gravadores a tarefa de materializar as suas descrições.
Esta necessidade de desenhar a natureza, mais do que um exercício de beleza estética, tem a finalidade de ensinar e divulgar. A ilustração científica usa uma linguagem técnica própria da arte para comunicar temas científicos, o seu objectivo é apresentar um modelo ideal que reúna todas as características diagnosticantes que definem uma espécie. Revela detalhes que não se destacam numa fotografia e dá enfâse ao que se quer evidenciar.
É um universo onde se juntam profissionais com interesses transversais: biólogos que gostam de desenhar e artistas apaixonados pela ciência. Mais importante do que a capacidade de desenhar, é saber observar, ter perseverança e ter a capacidade de compreender o que se observa e passar essa informação para o desenho. Na ilustração científica não há espaço para a ambiguidade, trata-se de divulgação e há que fazê-lo de forma correcta.
Trata-se de uma arte ao serviço da ciência cujo objectivo é o de divulgar, consciencializar, identificar espécies e mostrar o quão magnifico é o mundo natural."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

Link para o evento no Facebook

Entrevista que dei à revista do Montepio (n.º 25, Out. 2017)

P- Que significado tem para si a atribuição do Grande Prémio Ciência Viva Montepio 2017?

R- Estou muito grato pela atribuição do prémio maior na área da comunicação de ciência. É um estímulo para prosseguir o caminho que iniciei há muitos anos de espalhar a ciência na sociedade.

P- Qual a importância desta iniciativa para a promoção da cultura científica em Portugal?

P- Em boa hora a Associação Mutualista Montepio e a Ciência Viva se juntaram para distinguir quem tem procurado ligar a ciência e o público. Sinto-me "aos ombros de gigantes": antes de mim receberam o Grande Prémio Guilherme Valente, Galopim de Carvalho, Jorge Paiva, Manuel Paiva e Manuel Sobrinho Simões, nomes que honram o Prémio. A cultura científica – que consiste precisamente nessa ligação entre ciência e sociedade – está viva em Portugal, alimentada por esses e por muitos outros nomes. Mas esta tarefa de levar a ciência a todos é e será sempre, por sua própria natureza, inacabada.

P-Tem publicados mais de 60 livros. É uma forma de dar o seu contributo para aproximar a ciência dos cidadãos?

R- Há muitas formas possíveis de levar a ciência ao público. Eu gosto em particular da forma do livro, talvez por, em jovem, ter descoberto a ciência através desse meio. Dirijo, desde o nº 200, a coleção "Ciência Aberta" da Gradiva, que tem interessado muitos leitores, em especial jovens.

P- Quando é que percebeu que queria ser cientista? E porquê a Física?

R-  Foi pelos 15 ou 16 anos. Percebi através dos livros — entre os quais os de Rómulo de Carvalho — e através da escola que a ciência era uma atividade que eu podia também abraçar. A Física atraiu-me por ser mais geral: coloca e responde a questões gerais sobre o Universo em que vivemos.

P- Se não fosse cientista, o que seria?

R- Boa pergunta. Eu gosto muito de comunicar, talvez jornalista ou escritor, coisas que também faço um pouco a par da atividade de cientista. Os cientistas têm em comum com os jornalistas a curiosidade por saber a verdade a respeito do mundo e do homem

Gravidez, Cancro, Tribunais e Terapias Alternativas


Informação recebnida da Fundação Francisco Manuel dos santos (fiz um depoiemento para o livro "Terapias, energias e algumas fantasias"):

A 21 de Fevereiro, a Fundação publica três novos livros na colecção Retratos, que levam aos leitores reportagens sobre três temas que têm marcado a agenda, dando azo a debates e despertando a preocupação dos portugueses.
Nelson Marques assina Filhos da quimio, uma incursão na vida de cinco mulheres que lutavam contra o cancro quando receberam a notícia de que estavam grávidas. João Villalobos mergulhou no universo tantas vezes catalogado de «alternativo» em Terapias, energias e algumas fantasias e leva-nos aos bastidores desse fenómeno crescente, ouvindo defensores acérrimos e detractores convictos.  Daniel Seabra Lopes e Ricardo Gomes Moreira acompanharam o dia a dia de dois tribunais lisboetas e desvendam o quotidiano dos corredores da justiça em Com a devida vénia: diários dos tribunais.

Os Retratos têm sessões de lançamento agendadas para Fevereiro e Março, em Lisboa. . Em Maio serão publicados seis novos títulos das colecções EnsaiosRetratos. Mais novidades muito em breve.

Destaque para este título:

Terapias, energias e algumas fantasias

Nunca as terapias alternativas, que têm por base a energia, estiveram tão em voga. Mas, no lastro do trendy, será que se consegue separar o trigo do joio, quem quer praticar de quem apenas quer lucrar? E como olhar para este universo, com raízes milenares, agora tantas vezes esvaziado e transvestido em folhetos fluorescentes? João Villalobos conduz-nos numa viagem por este universo, escutando opiniões distintas sobre os vários prismas da questão. Nas livrarias a 21 de Fevereiro. 

Lançamento Quinta-feira, 1 de Março, às 19.00, na Sala Beijing do Museu do Oriente, em Lisboa, David Marçal e Pedro Teixeira da Mota apresentarão o livro, numa sessão com a presença do  autor e moderação de Carla Hilário Quevedo.

HOMENAGEM A URBANO DUARTE


Fui aluno dele: foi um grande professor. Quando tinha 15-16 anos deu a mim e ao António Pedro Pita a responsabilidade de uma página no jornal que dritigia, o "Correio de Coimbra". Chamava-se "INício" e foi assim que me iniciei na imprensa escrita. Vai-lhe ser feita uma homanagem, pela passagem dos 100 anos. Merecidíssima. Ler aqui.

Entrevista a David Marçal no "Jornal de Leiria": será possível chegar aos 120 anos?

Ler, pelo menos em parte, aqui. Acrescento este excerto, que nos fala de actuais desafios da ciência:


P- Os cientistas já criaram a ovelha Dolly e depois macacos. Até onde nos levará a ciência?

R-  Não sabemos até onde a ciência nos vai levar. Neste momento, a genética tem potencial para fazer coisas incríveis que a maioria das pessoas ainda não se apercebeu e que pode revolucionar muito as nossas vidas nos próximos anos. Hoje a ciência e o conhecimento trazem-nos desafios éticos e de sociedade, quer seja na questão da recolha de dados na análise de grandes quantidades de dados, na inteligência artificial, quer seja no campo da genética e da biologia. Há coisas que já foram feitas, que parecem ficção científica, como por exemplo, modificarmos os genes de um ser vivo adulto. Essas técnicas têm um potencial de nos permitir, por exemplo, dentro de alguns anos, um casal querer ter um filho que corra muito depressa e introduz-lhe um gene do Usain Bolt. Isto é legítimo? É ético? A inovação e a tecnologia sempre trouxeram desafios ao resto da sociedade. Na passagem para o século XXI foi finalmente concluída a sequenciação do genoma humano e agora estamos no ponto em que a engenharia genética pode realmente cumprir as promessas de décadas. Há questões de regulação que vão ser sempre muito difíceis. A União Europeia poderá ter leis restritivas, mas pessoas com dinheiro poderão fazer procedimentos de engenharia genética extravagantes. Haverá possibilidade de fazer algum turismo genético. Por exemplo, a engenharia genética poderá permitir-nos viver mais. Quem sabe até não envelhecer. A diferença entre pessoas supracentenárias e as que morrem muito mais cedo não está no estilo de vida, nem nas dietas paleolíticas. Há pessoas que têm vidas stressantes, são sobreviventes do holocausto e acabam por chegar aos 115 anos. Isso está essencialmente nos genes. Se compreendermos quais são as variantes dos genes dessas pessoas que lhes permitem viver tanto tempo e, por exemplo, modificá-los através de técnicas de edição genética para serem iguais aos desses supracentenários, poderemos então ter o potencial para chegar aos 120 anos.

MÚSICA ELECTRÒÓNICA NA ESTUFA

Informação recebida do Museu Botânico de Coimbra

Concerto de John Chowning na Estufa Grande


19 de Fevereiro, 18 horas


O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, no âmbito das atividades preparatórias da reabertura da Estufa Grande, apresenta o concerto de John Chowning, na próxima segunda feira, 19 de Fevereiro, às 18 horas.

O concerto decorrerá na Ala Este da Estufa Principal e podem levantar os ingressos na bilheteira do Teatro Académico Gil Vicente, até ao dia 17 de Fevereiro.

A entrada é gratuita.


Este concerto é realizado em colaboração com o Aveiro Síntese, uma organização Arte no Tempo.

Saibam mais

"ESSES OSSOS"


O título deste livro é um achado. O subtítulo esclarece "39 imagens fotográficas e 36 poemas animais". Com design cuidado, o livro é um objecto artístico  que une arte e ciência, inserindo-se num movimento contemporâneo que visa a aproximação das duas culturas.  As fotografias são de Paulo Gaspar Ferreira, o fotógrafo e alfarrabista ("Ex Libris", que já fez 20 anos e que vale a pena visitar tanto pelos conteúdos como pela estética), que organizou uma magnífica exposição sobre clarabóias do Porto no final de 2015 - Ano Internacional da Luz, e que já antes nos tinha brindado com outros livros artísticos,. A cuidada selecção de poemas é de Isaque Ferreira. A paisagem sonora é de Brendan Hemswoth: sim, este livro tem música em anexo, pois a imagem da contracapa remete directamente através de um telemóvel (QR code) para um acompanhamento musical na Internet. Finalmente, last but not least, a curadoria do projecto que deu lugar ao livro é da cientista Catarina Ginja, investigadora do CIBIO, no Porto, especialista em arqueologia animal. A ideia original consistia em fotografar vestígios arqueológicos de animais domésticos e dos seus antepassados selvagens, das colecções do Museu Geológico em Lisboa (um extraordinário, embora esquecido, Museu, junto à Academia das Ciências em Lisboa) e do Museu de São Miguel Odrinhas (outro museu que vale a pena visitar). As fotografias a preto e branco denotam um original olhar artístico sobre peças arqueológicas. O design, com um fundo preto de todo o livro, valoriza  o cinzento cor de osso das peças. Nestas se inclui o esqueleto de um cão doméstico (portanto, um descendente do lobo), com cerca de 8000 anos, que é o mais antigo encontrado em Portugal. (foi encontrado no Cabelo da Arruda, em Muge, em 1880), mas, esquecido nas colecções do Museu Geológico, só foi valorizado por um artigo científico publicado em 2010. As colecções de geologia e história natural constituem hoje, num mundo científico onde a genética ganhou proeminência, um repositório inestimável, para compreender melhor a evolução e a biodiversidade, as duas indissociavelmente associadas.  Alguns dos melhores geólogos e arqueólogos nacionais, começando no final do século XIX,  estão envolvidos na escavação e na identificação destas peças a animais, que estão devidamente identificadas no final.  O leitor que não seja especialista aprende imenso sobre zooarqueologia na introdução, ficando com vontade de saber mais. A curadora destaca pela estética  falanges de cavalo da Lapa da Bugalheira, Torres Novas, que teriam sido usados como objectos de culto. Em extratexto encontram-se duas fotografias autografadas pelo fotógrafo e decerto escolhidas por ele.

Os poemas são de grandes nomes da poesia portuguesa como Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Herberto Hélder, Jorge Sousa Braga, Mário Cesariny, Nuno Júdice e Sofia de Mello Breyner Andersen (a poetisa homenageada com a exposição da baleia do Museu de História Natural da Universidade do Porto).

Destaco dois poemas de O'Neill cujo lado irónico me cativa:

A ESTOUVACA

Deitada atravessada
Na estrada
A malhada
Vai ser atropelada
Foi.

Alexandre O'Neill

CÃO

Cão passageiro, cão estrito
 Cão rasteiro cor de luva amarela,
 Apara lápis, fraldiqueiro,
 Cão liquefeito, cão estafado
 Cão de gravata pendente,
 Cão de orelhas engomadas,
 de remexido rabo ausente,
 Cão ululante, cão coruscante,
 Cão magro, tétrico, maldito,
 a desfazer-se num ganido,
 a refazer-se num latido, cão disparado:
 cão aqui, cão ali, e sempre cão.
 Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
 cão a esburgar o osso essencial do dia a dia,
 cão estouvado de alegria,
 cão formal de poesia,
 cão-soneto de ão-ão bem martelado,
 cão moido de pancada e condoído do dono,
 cão: esfera do sono, cão de pura invenção,
 cão pré fabricado, cão espelho,
 cão cinzeiro, cão botija,
 cão de olhos que afligem,
 cão problema...

 Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

Em resumo, o projecto, publicado pela Ex-Libris, é muito bonito, e como é costume com as obras do Paulo que conheço, tem uma extraordinária qualidade gráfica (até o título, "Esses Ossos", imita uma espinha). Acima de tudo a ideia é muito bonita: juntar as fotos de  arqueologia animal com a arte poética de temática zoológica  parece-me absolutamente inédito. Muitos poemas falam de ciência, mas estes, falando de seres vivos que podem ser objecto de ciência, vão muito além da ciência, entrando pela vida quotidiana. Falam dos "animais, nossos amigos", seres vivos que julgamos conhecer, mas cuja antiguidade, tão bem documentada na arte fotográfica, em geral ignoramos.

O livro tem a virtude de chamar a atenção dos felizes leitores que encontrar para a modernidade da investigação com velhos ossos. A arte é e continuará a ser uma boa companheira da ciência!

Quem estiver interessada na obra de arte, pode adquiri-la aqui.

"ENTRE ESTRELAS E ESTRELINHAS. ESTE MUNDO ANDA ÀS VOLTINHAS"


Acaba de sair o livro com o título de cima, da autoria de José Fanha (poemas), Daniel Completo (músicas e interpretação) e meu (prefácio e notas introdutórias aos poemas).  Trata-se de um livro de poemas infantis que vem acompanhado por um CD e com belas instruções da Cristina Completo. A editora  é  Edições Canto das Cores. Sesimbra, que tem publicado outras obras congéneres. Os dois primeiros autores têm feito sessões nas escolas em que juntam música e poesia. A novidade deste livro consiste no facto de todos os poemas envolverem a ciência, a começar no Big Bang e a acabar no planeta Terra. Quem estiver interessado em adquirir o livro pode fazê-lo através do endereço: https://www.cantodascores.com/loja?lightbox=dataItem-jdg5kk4j

Deixo aqui o meu prefácio e um poema de José Fanha "Canção do Porquê" com uma minha nota introdutória:


Estes poemas de José Fanha, feitos a pensar nos mais jovens, são todos eles inspirados na ciência. A ciência é a descoberta do mundo. Os cientistas colocam questões sobre o mundo e tentam saber se as respostas que dão estão certas. É logo de pequenino que todos nós começamos, movidos pela curiosidade, a colocar perguntas. Os cientistas são aquelas pessoas que nunca deixam de colocar perguntas e de procurar as melhores respostas. E para isso é preciso observar e experimentar. Os poemas que se seguem convidam a fazer perguntas, a observar e a experimentar.

Hoje os cientistas, depois de terem colocado perguntas sobre as estrelas, sabem que houve um tempo em que ainda não havia estrelas, mas apenas o material para fazer essas estrelas. O início do mundo foi semelhante a uma grande, tremenda, explosão. O material de que viriam a ser feitas as estrelas espalhou-se pelo espaço e só depois, quando o Universo foi arrefecendo, é que se juntou devido à força da gravidade, formando os astros luminosos que vemos no céu.

A estrela mais próxima de nós, a “nossa estrela”, é o Sol. Sem ela, sem a sua luz, não poderíamos viver neste planeta a que chamamos Terra. A Terra está à distância certa do Sol para aqui podermos viver: nem é muito quente, nem muito frio. Ao longo de um ano damos uma volta ao Sol, numa órbita que é ainda explicada pela força da gravidade. E, tal como a Terra anda à volta do Sol, a Lua anda à volta da Terra. Sempre graças à gravidade. Para viver, beneficiamos também da presença de ar e de água no nosso planeta, o ar que respiramos, e a água que bebemos.  A vida, que se multiplica no nosso planeta, não é conhecida em mais nenhum outro sítio. Mas os cientistas continuam à procura de vida noutros lados...

De posse de algumas respostas, validadas pela observação e pela experiência, os cientistas conseguem mudar o mundo. Falamos de invenções, como a da luz eléctrica, que nos permite ler quando está escuro. Os cientistas têm ideias sobre o mundo e essas
ideias acabam por permitir uma vida melhor nele.

Tudo isto pode levar muito tempo a explicar. Mas aqui está explicado de um modo muito simples e atraente. Na forma de poemas para canções. A cantar também se pode aprender. A ciência, como José Fanha mostra, pode misturar-se com a poesia.


Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra


CANÇÃO DO PORQUÊ

Fazer perguntas sobre o mundo à nossa volta é o o início de toda a ciência. Na “idade dos porquês” as crianças começam a fazer perguntas. Começam, portanto, a imitar os cientistas: dizem, como eles, “quero saber o porquê”.


      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que o céu é azul
e começa a escurecer
quando é hora de deitar
e eu estou quase a adormecer

Porque é que o  deserto é quente
e o Polo Norte tão frio
porque corre o rio para o mar
e o mar não corre para o rio

      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que o céu fica escuro
para dizer que vai chover
porque é que eu fico com fome
na horinha de comer

Porque é que  somos diferentes
uns loiros outros morenos
negros brancos amarelos
mais  altos ou mais pequenos.

      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que a terra não pára
porque é que o mar é salgado
e o fumo sobe para o céu
e a chuva cai no telhado
Porque é que a água congela
e outras vezes é  vapor
ou então é água pura

nos olhos do meu amor.

José Fanha

HOJE: NOVA APRESENTAÇÂO EM LISBOA DE "A CIÊNCIA E OS SEUS INIMIGOS"


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ordem dos Médicos: Validade científica outorgada por portaria - ameaça à Saúde dos cidadãos

Validade científica outorgada por portaria - ameaça à Saúde dos cidadãos

Foi publicada em 9 de fevereiro a Portaria 45/2018 que regula os requisitos gerais que devem ser satisfeitos pelo ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado em Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que venham a ser criados.

No âmbito das suas atribuições, compete à Ordem dos Médicos contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes, pelo que não podemos deixar de salientar que o referido ciclo de estudos não habilitará à prática de Medicina, que é exclusiva dos Médicos.

A consagração deste ciclo de estudos é o culminar de um processo que sempre mereceu e continuará a merecer a oposição da Ordem dos Médicos quer pela forma como foi conduzido, quer pelas soluções adotadas.

Não podemos deixar de realçar que um jovem médico, em Portugal, tem uma formação pré-graduada exclusivamente universitária de 12 semestres curriculares correspondente a 360 unidades de crédito ao qual se segue a formação pós-graduada para habilitação ao exercício autónomo e especializado da Medicina que, em algumas especialidades, chega a durar 7 anos.

Reiterando que todas as intervenções terapêuticas com resultados efetivos e comprovados cientificamente são incorporadas na Medicina convencional, a criação de ciclo de estudos com formação de 8 semestres curriculares em práticas que não têm base científica comprovada, constitui um perigo para a Saúde e para as finanças dos portugueses pois poderá gerar atrasos em diagnósticos e tratamentos de situações potencialmente graves que, assim, continuarão a evoluir.

Mais uma vez a Ordem dos Médicos lamenta que o legislador tenha cedido aos interesses comerciais e publicitários, apelidando este ciclo de estudos de Medicina Tradicional Chinesa, dando azo a que surjam equívocos quanto à componente (inexistente) de formação Médica.

A Ordem dos Médicos já tinha em 2013 manifestado em sede Parlamentar e em ofício dirigido ao Presidente da República que a expressão “Medicina tradicional chinesa” fosse substituída por “Terapêuticas tradicionais chinesas” a propósito da proposta de Lei 111/XII.
As práticas ou terapêuticas tradicionais chinesas não constituem prática médica e, em defesa da verdade, da transparência, das expectativas dos candidatos à formação pré-graduada e da própria saúde dos doentes, isso deveria ser bem claro para todos aqueles que venham a interagir com os titulares de tais estudos.
De resto, não basta como faz o artigo 15º da Portaria em análise, prever que “as instituições de ensino superior devem garantir que a comunicação ou publicidade relativa aos ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciado em Medicina Tradicional Chinesa não origina equívocos sobre a natureza do ensino ministrado e que não o tornam confundível com outros ciclos de estudos acreditados”.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, e o ministro da Saúde ao assinarem esta Portaria estão a contribuir para um retrocesso sem precedentes na essência da fundamentação científica da investigação e na evolução da inovação tecnológica e terapêutica próprias da medicina. Uma atitude irresponsável de consequências nefastas para a saúde das pessoas e dos doentes, que irá provocar um aumento imponderável na publicidade enganosa e na pseudociência. Atribuir validade científica por portaria e induzir as pessoas em erro criando licenciaturas em terapêuticas que não têm a devida fundamentação científica é legitimar de forma artificial cursos superiores que não servem os interesses dos doentes que o Estado tem a obrigação de proteger.
Esta decisão do ministro da Saúde e do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pode colocar em causa as relações institucionais entre a Ordem dos Médicos e o Governo e reforça de forma definitiva a desastrosa política de saúde que tem sido implementada nos últimos anos, com prejuízo grave para os doentes e para todos os profissionais de saúde que têm por formação e agem com base em conhecimentos fundados na evidência científica. A Ordem dos Médicos fica assim totalmente legitimada para liderar um processo de oposição firme de todos os médicos a uma política de saúde patológica que não serve os doentes nem o país.

A Ordem dos Médicos continuará a defender a saúde pública, a medicina e os doentes de práticas sem validade científica comprovada, do exercício ilegal da Medicina e da publicidade enganosa.


Conselho Nacional da Ordem dos Médicos

Bastonário da Ordem dos Médicos
Lisboa, 14 de Fevereiro de 2018